
Safo Rainha de Lesbos, de Niceas Romeo Lanchett.
Meu coração ficou confuso por longo tempo. Por um lado, repudiava a própria lembrança do que vira, por outro, a cena me assaltava em sonhos e inesperadas recordações. Fiz algo que jamais pensei em fazer, procurei frei Emil para me confessar. Enquanto eu me agarrava a ele, chorando, ele me acalentava e aconselhava:
_Não chore, minha menina, o mundo é assim mesmo. Está escrito no livro de Jó: "(...) o mundo inteiro jaz no malígno!".
Frei Emil não me passou nenhuma penitência, apenas passou a me ensinar sobre a natureza do mundo, a partir de seus livros proibidos, como o Satíricon, de Petrônio _o seu preferido. Por esta época, Mila, em suas cartas, revelou-me muito de seu amor incestuoso com Nicolae e confidenciou-me sua vida nada santa no convento. Em suas próprias palavras, escritas no mais belo grego alexandrino, narrou:
_Não chore, minha menina, o mundo é assim mesmo. Está escrito no livro de Jó: "(...) o mundo inteiro jaz no malígno!".
Frei Emil não me passou nenhuma penitência, apenas passou a me ensinar sobre a natureza do mundo, a partir de seus livros proibidos, como o Satíricon, de Petrônio _o seu preferido. Por esta época, Mila, em suas cartas, revelou-me muito de seu amor incestuoso com Nicolae e confidenciou-me sua vida nada santa no convento. Em suas próprias palavras, escritas no mais belo grego alexandrino, narrou:
Desde que aqui cheguei, tenho sido poupada dos afazeres mais extenuantes, tendo como ocupação apenas a tradução e a leitura. Logo no princípio, ainda fui submetida à dureza da vida religiosa, tendo meus cabelos tosados e minha alegria contida. Porém, cai nas graças de todas e sobretudo na de irmã Gabriella, nossa madre superiora. Por isso, fui recompensada com toda sorte de agrados e mimos. Não me alimento apenas com a ração regular, mas recebo secretamente refeições profanas na biblioteca, que chegam a conter doces e frutas. Ainda que em segredo, recebi permissão para deixar meus cabelos crescerem e para usar perfumes, que me são presentados pela própria madre. Escondo meus cabelos debaixo do véu e quanto ao perfume, as outras irmãs pensam ser um milagroso dom divino.
Durante a noite, tenho momentos deliciosos junto à madre, seja em minha cela, seja em sua sala particular. Sento em seu colo como uma criança, completamente nua. Ela me queima com seus beijos e carícias. Meu corpo é seu brinquedo e suas mãos _e ainda mais, sua boca! _me conduzem às alturas do paraíso. A pedido dela, uso jóias e cosméticos em nossos encontros. As jóias são as minhas próprias, que foram doadas à Santa Sé e estão guardadas sob os cuidados da madre. Os cosméticos ela consegue negociando em segredo com os ciganos.
Quando começamos nossas folganças noturnas, indaguei a ela se o que fazíamos não era pecado contra a lei de Deus. Ela me respondeu que no mundo éramos carne e que desta condição não poderíamos fugir. Apenas nos resta obrar pela fé e pelas vidas dos que sofrem, pois desta maneira talvez consigamos o perdão no julgamento final. Ela também me explicou que poucos são os agraciados em nascer com uma natureza divina, nada querendo desta Terra. A nós, os pecadores, que somos maioria, cabe dançar com Deus e o Diabo, sabendo terminar nas mãos do Criador ao fim do baile...
Lendo isso, lembrei-me da poesia de Safo. Frei Emil apresentou-me uma coleção de seus versos, que ele guardava com todo cuidado, dizendo serem raros, para além de proibidos. O mundo pagão vivia sem pecado. O pecado foi criado por nós cristãos. Toda depravação provém de nós, do pecado que cometemos ao lançar no inferno todos os deuses da natureza, com seus irreprimíveis poderes. Mesmo os tormentos do Hades não eram para o luxuriosos _visto que os deuses eram os primeiros a cair em tentação! _antes sim, para os traidores, para os ingratos, para os falsos, para os perversos. Gente como Traian e não como minha pobre irmã. Esta pecara e fora cruelmente punida com a esterilidade. Entregaram-na para a Igreja para que salvasse sua perdida alma. Mas lá, apenas fora conduzia aos Céus... pelas ardentes labaredas do Inferno!
Bela referencia a poetisa Safo.
ResponderExcluirmUITO bem escrito essa novela. Estou gostando muito. Realmente ela vai crescendo, se enriquecendo de detalhes, de descrições, de surpresas...