sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

POLÍTICA
























O banqueiro e sua esposa, de Quentin Massys, 1514.




Depois da refeição, papai fechou-se na sala particular de Béla, para discutirem o que realmente o levara até ali. Lembro de estar brincando com Mihail, próxima à porta, e de ter ouvido sua conversa. Como boa menina curiosa que era, olhei pela fechadura. Mihail quis bisbilhotar também.
_Deixa eu ver. Deixa eu ver, I.
_Sai, Mika! _o empurrava irritada.
O teor da conversa não era dos melhores, papai esbravejava:
_Isto é insulto! Querer que eu dê minha filha em casamento àquela besta que ele chama de filho, em troca do perdão dos impostos atrasados! O que este baronete de meia tigela pensa que é?!... Um contrabandista do pior tipo, que enriqueceu vendendo mercadoria roubada das caravanas do oriente! E que agora possui, infelizmente, autoridade só porque um príncipe moleque! _que ainda mal vestiu as calças! _o elevou à condição de conde, para que ele nos cobre esses impostos injuriosos! Eu tenho estirpe, sou um székely! Não sou como este anão meio romeno, meio magiar, que além de infiél, não passa de um oportunista desclassificado!
_Porém, um oportunista que detém poder. _argumentou Béla. _Temos de encarar a realidade, Joszef, os protestantes estão no poder. Portanto, se quisermos viver em paz, teremos de ceder.
_O que se pede de meu povo não é que ele ceda, mas que se humilhe. Sempre servimos ao império por lealdade! Agora que fazemos parte de um minguado principado, nos arregimentam à força e nos obrigam a pagar impostos, como se fôssemos alguma espécie de povo conquistado, como se nosso país fosse uma reles colônia!
_São os novos tempos, Jozsef, temos de nos ajustar a eles. _pondera Béla.
_Ajustar?!... _se irritou papai _Então surge um principezinho infiél, que nos obriga a pagar impostos, a servir no "seu!" exército e ainda concede autoridade a oportunistas sem linhagem para que eles nos humilhem e eu tenho de me "ajustar"?!!...
Béla se manteve calado e impassível frente ao ataque de fúria de papai. Este continuou:
_Acho que ainda não lhe contei tudo o que está acontecendo... Este maldito anão está me vigiando. Ele insiste em pôr seus cavaleiros passeando em minhas terras, como forma de intimidação. Quando o inquiri por que estava estava fazendo isso, respondeu que recebera a incubência de vigiar as terras do príncipe!... Como terras do príncipe?! Essas terras são minhas!...
_Ou eram!... _questionou Béla calmamente. _Jozsef... sou banqueiro porque herdei o banco de meu pai, mas sou advogado de formação. A conciliação, para mim, sempre é o melhor caminho. Reflita melhor sobre a proposta de casamento do conde...
_Jamais! _vociferou papai. _Jamais entregarei minha filha a um infiél! Aliás, para mim, aqueles dois, pai e filho, não passam de dois vampiros!...
_Acredita nessas lendas, Jozsef? _riu-se Béla.
_Acredito no que meus ancestrais acreditam.
_Não levo a sério essas lendas dos camponeses, com todo respeito à sua pessoa. Sou um homem da urbe, lido com problemas reais... _postulou esfregando a ponta do polegar com o indicador, querendo dizer "dinheiro".
_Pois então me dê uma boa quantidade de seus "problemas reais" e eu resolverei o meu problema, pagando aquele cachorro!
_Jozsef, tem idéia da quantia que está me pedindo?... Tem certeza de que poderá me pagar?... _questionou Béla.
_Sim! _respondeu papai firmemente.
_De que maneira? _questionou novamente Béla.
_Mila!... Estou disposto a lhe entregar Mila! _respondeu papai fazendo Béla arregalar os olhos. _Prefiro mil vezes vê-la na mão de um judeu convertido, do que na mão de um infiél!
_Confesso que é uma proposta bem interessante! _respondeu Béla, piscando os olhos lascivos.
_E qual é sua resposta? _exigiu papai.
_Minha reposta... é de que terá minha total ajuda, meu caro. Todo o crédito que precisar! _respondeu Béla estendendo a mão a papai.
_Ótimo! _alegrou-se papai, segurando firmemente a mão de Béla.

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