
Cerca de seis meses após o casamento de Vladia _numa bela manhã de primavera, um domingo _recebemos uma visita muito pouco auspiciosa, o baixote e ardiloso conde Vladmir e seu filho Ferencz. Da janela, os vi chegando, guarnecidos por seus cavaleiros. Lembro de ter ficado com raiva e apreenção ao mesmo tempo. Papai desceu para recebê-los acompanhado de Nicolae e alguns de seus melhores homens. Traian ia a seu lado. Nicolae foi quem me contou o que de resto aconteceu. Segundo ele, tão logo o conde o viu guarnecido, com a espada no cinto e pronto para o enfrentamento, ergueu sua mão e saudou-o em tons amistosos:
_Saudações, meu caro Jozsef! Venho em paz, para tratar de assuntos de nosso mútuo interesse.
_Se é assunto de meu interesse também, suponho então que o conde possa descer de seu cavalo e entrar para conversarmos a sós. _testou papai.
_Com todo o prazer, mas peço que me permitas levar meu filho Ferencz, pois o assunto também diz respeito a ele.
_Permito sim, desde que meu filho Nicolae também nos acompanhe. Já o estou inteirando nos assuntos da família. _testou de novo.
_Com certeza, caro Jozsef. Concordo sem objeções.
Papai então meneou a cabeça positivamente e estendeu a mão na direção do castelo, convidando-os a entrar. Conde Vladmir e Ferencz desceram de seus cavalos e acompanharam papai até sua sala particular. Antes de entrarem porém, papa. Em lá chegando, o conde foi direto ao assunto:
_Soube do casamento de sua segunda filha, Vladia e do infeliz acidente que acometeu sua filha mais velha, Mila. Fiquei muito triste com o acontecido, pois ainda a queria como nora. Mas como não podemos mudar o que está feito, vim aqui... para falarmos de Irina.
_Ainda não tenho planos de casamento para Irina. _respondeu papai secamente.
_Por isso mesmo! _rebateu o conde _Irina não tardará a entrar na adolescência. Penso que podemos fazer um acordo muito vantajoso para nós dois. Meu filho é excelente guerreiro e o estou preparando para também para a política...
Frente aos elogios do pai, Ferencz sorriu, mostrando seus horrorosos dentes de ogro. Sua fisionomia era feroz e quase inumana. Ao contrário do pai, que tinha cabelos compridos e longos bigodes, Ferencz tinha os cabelos curtos e hirtos e apenas uma áspera barba mal aparada. Contemplando tal semblante, papai encheu-se mais ainda de asco e cortou o discurso de conde Vladmir:
_Não casarei Irina com um protestante! Sou católico, fiél à fé de minha nação! _respondeu categórico.
_Meu caro, Jozsef... você não está em condições de rejeitar uma oferta como esta. Os székelys não detém mais o mesmo poder. Penso que é tolice se opor à nova ordem. Tenho excelentes relações com o príncipe...
_Não reconheço a autoridade deste príncipe se é o que quer saber! _interrompeu papai. _Ele não converterá a mim e à minha família em infiéis, como pretende! Tenho direito de permanecer católico e de fazer com que minha família assim permaneça!...
_Sim, mas soube que sua esposa... já não concorda com sua postura e que já professa a fé de Lutero.
_Minha esposa não é székely! _vociferou papai. _Além do mais, quem decide o futuro de meus filhos e filhas sou eu! Saiba, conde... que enquanto eu permanecer vivo... minha casa será székely e servirá à Igreja de Roma!...
Conde Vladmir então baixou o olhar, balançou a cabeça negativamente e concluiu:
_Penso, Jozsef... que você deve refletir melhor. Não inisistirei mais com você por hoje. Mas prometo voltar, para continuarmos nossa conversa.
Conde Vladmir partiu então com sua comitiva, deixando papai muito apreensivo. Ele reconhecia seu isolamento e não conseguia encontrar uma saída. Fechou-se então em sua sala por cerca de quase uma hora, depois, desceu resoluto, procurando por mim. Eu me encontrava na cozinha, pintando ovos para Páscoa e ouvindo Erzsi contar estórias de fantasmas e vampiros, enquanto preparava um bolo adoçado com açúcar, que eu adorava. Papai chegou ressoando suas botas. Parou à porta da cozinha e me chamou de forma firme, quase como se fosse me dar uma reprimenda:
_Irina, venha aqui, agora!
Fui sem exitar. Porém, bem ao contrário de qualquer coisa que eu pudesse imaginar, papai me levou para o pátio perto do estrebaria, onde treinava meus irmãos. Estes, por sinal, já nos aguardavam, sem as camisas. Papai tirou seu casaco e depois tirou a camisa. Pegou então uma pequena espada de madeira, que antes servira à Mihail. Deu-a para mim e disse:
_Tome, Irina! A partir de hoje, você treinará conosco!
Peguei a espada em silêncio, um tanto perplexa. Papai voltou-se para meus irmãos e ordenou:
_Repitam o que lhes ensinei ontém. Ensinarei apenas Irina por hoje.
Eles menearam positivamente com a cabeça e se posicionaram frente à frente, com as espadas em riste. Nicolae então ordenou a Mihail:
_Me ataque!
Este desferiu o primeiro golpe, que foi prontamente aparado por Nicolae. Suas espadas tiniram, me fazendo dar um leve salto. Papai observou o início de sua luta, meneou positivamente a cabeça e voltou-se para mim:
_Muito bem, Irina... Faça como eu!... Mantenha a cabeça erguida e empunhe a espada assim...
Eu o imitei, ele sorriu:
_Isso!... Muito bem! Muito bem!...
Então continuou:
_Agora, golpeie assim!... _ordenou cortando o ar com sua espada de aço, que zuniu, causando-me um arrepio na espinha.
Papai riu de meu susto e ordenou novamente:
_Vamos, filha, é a sua vez!
Golpeei o ar de forma desajeitada. Papai então parou, embainhou sua espada e veio até mim. Abaixou-se por trás de mim e segurou minhas pequenas mãos, fazendo-as erguerem novamente a espada de madeira. Começou então a instruir:
_Agora, olhe para frente... Mantenha os olhos na direção da ponta da espada e... golpeie! _e me fez desferir o golpe.
Este foi o dia de minha iniciação na espada. O dia em que papai viu que não podia mais apenas me defender. A partir daquele dia, tomei consciência de que tinha de aprender a me defender sozinha. Portanto, teria de ser uma ótima aluna para papai. A melhor aluna!...
Durante três anos, papai me treinou initerruptamente. De forma que quando alcancei 14 anos, não apenas havia me tornado uma mulher, como também uma guerreira. No combate, equiparava-me a meus irmãos e só perdia para papai. Era forte tanto na espada, como no combate corporal. Aprendi a desarmar oponentes com facas, adagas e machados. Para tanto podia me utilizar de unhas e dentes. Papai tentou ensinar para meus irmãos sua arma secreta: a luta com duas adagas. Mas eles não conseguiram aprender. O motivo era simples, papai era ambidestro e sabia manejar bem com ambas as mãos. Tanto Nicolae, quanto Mihail eram destros, como mamãe. Eu porém, era ambidestra, como papai, e por isso consegui aprender a arte. Também aprendi a montar a cavalo. Mas não como as mulheres, sentando-se de lado, e sim como os homens, abraçando o cavalo com as pernas. Mamãe se escandalizava ao me ver cavalgar, pois não só montava de forma impudica, como meu vestido levantava, mostrando minhas pernas até um palmo acima dos joelhos.
Papai também ensinou-me a atirar, jamais esqueço suas instruções:
_Cada um de vocês tem de conhecer sua própria arma antes de se atrever a usá-la em combate. _postulava, enquanto apontávamos para velhas garrafas de vinho. _Cada arma _continuava _atira da sua própria maneira, tem sua própria personalidade. Descubra como ela costuma lançar a bala e qual a distância que consegue alcançar, para que sua mira seja certeira!
Aprendi a atirar muito bem e passei a participar das caçadas. Não gostava de usar o mosquete, pois tinha de usar ambas as mãos e isso me desequilibrava sobre o cavalo. Preferia então a pistola, segurando as rédeas com a mão esquerda e a pistola com a direita. Uma vez, perseguíamos um obstinado javali. Nem papai, nem Marton, nem Nicolae, ou Mihail conseguiram alvejá-lo. Avancei então com meu cavalo por entre as árvores e me adiantei ao animal. Equiparei minha velocidade à dele e apontei a arma na direção de seu focinho. Ele estava a cerca de vinte e cinco pés de distância. Tão logo sua cabeça emergiu detrás de um pinheiro... disparei!... _Pah! _Seu olho estourou, fazendo sua cabeça balançar para o outro lado, como se tivesse levado um forte soco. Como viesse à grande velocidade, ainda continuou sua desabalada fuga por mais vinte pés, cambaleando e perdendo a direção para a direita, até chocar o focinho em um pinheiro e tombar pesadamente sobre o chão.
Fui então até ele e o vi em em seus últimos suspiros, tremendo e grunhido. Logo chegaram os homens e papai elogiou:
_Nossa santa Mãe!... Mas que belo tiro! Muito bem, Irina! Muito bem!...
Nicolae me olhou com uma cara fechada, como se sentisse insultado por não atirar melhor que uma mulher _pior que isso! _que sua irmã caçula! De minha parte, me limitava apenas a sorrir com altiva e vitoriosa satisfação.
Por esta época, recebemos a visita inesperada de um grande amigo de papai, János Literati! Chegou trazendo consigo o pequenino Mózes, que contava então seus nove anos. Afagando a cabeça do filho, lembro de Literati falando à papai:
_Já o estou levando comigo para trabalhar nas minas. E graças à Santíssima Mãe, que atendeu ao meu pedido de um filho homem, ainda recebi a graça dele gostar muito de nossa função. Não são todos que aguentam trabalhar com o sal.
A visita de János não era puramente fraterna, os mineiros preparavam uma grande rebelião contra o príncipe Sigismond.
_Já conseguimos o apoio dos saxões, Joszef, a rebelião será deflagrada a qualquer momento.
_No que diz respeito a mim, eu e meus homens já estamos prontos para o combate, amigo János.
De fato, a rebelião não tardou em explodir. Papai riu quando roguei para que me levasse junto com ele para a guerra. Nicolae caçoou de mim:
_Irina, você é mulher! Guerra é coisa de homens!
_Luto melhor que muitos homens! _respondi furiosa.
Nica também queria ir para a guerra, mas papai o incumbiu de defender o castelo em sua ausência. Fez isso primeiro porque sabia que, em caso derrota székely, uma possível tropa do príncipe apareceria para confiscar nossas terras e o castelo, segundo por consideração à pobre Greta, que estava grávida do primeiro filho de Nicolae. Baixa, gorducha e temperamental, Greta era a filha caçula de Béla. Papai a casou com Nicolae para ressarcir o banqueiro pelo fato deste ter recebido Vladia já violada. Desta forma, com o casamento da filha, pelo menos garantiria netos nobres.
A rebelião, porém, mostrou-se um fiasco. Parte do exército do príncipe era composto de székelys comprados com cargos e privilégios. Como se não bastasse, János Sigismond foi até Constantinopla, ajoelhar-se aos pés do sultão Süleiman e rogar por seu socorro. Süleiman atendeu à sua súplica, ajudando-o a bater os revoltosos. Recebeu em troca um antigo sonho: Erdély! Sigismond passou então a governar como príncipe, sob a tutela otomana. Para escornar o poder de nossa nação, destituiu nossos juízes eleitos, em Udvarhely e Háromszék, e pôs homens de sua confiança em seu lugar.
Papai voltou para casa magro e abatido, com cicatrizes no corpo e a vã promessa turca de que sua fé e seus direitos seriam respeitados. Na verdade, ele trazia sobre as costas uma grande carga, que só depois me revelaria. Ainda lembro de avistá-lo chegando em seu cavalo, numa enevoada manhã de outono. Com lágrimas nos olhos, corri para abraçá-lo!
_Calma, minha Irina! Calma!... Estou de volta!... _dizia enquanto me acalentava.
Durante três anos, papai me treinou initerruptamente. De forma que quando alcancei 14 anos, não apenas havia me tornado uma mulher, como também uma guerreira. No combate, equiparava-me a meus irmãos e só perdia para papai. Era forte tanto na espada, como no combate corporal. Aprendi a desarmar oponentes com facas, adagas e machados. Para tanto podia me utilizar de unhas e dentes. Papai tentou ensinar para meus irmãos sua arma secreta: a luta com duas adagas. Mas eles não conseguiram aprender. O motivo era simples, papai era ambidestro e sabia manejar bem com ambas as mãos. Tanto Nicolae, quanto Mihail eram destros, como mamãe. Eu porém, era ambidestra, como papai, e por isso consegui aprender a arte. Também aprendi a montar a cavalo. Mas não como as mulheres, sentando-se de lado, e sim como os homens, abraçando o cavalo com as pernas. Mamãe se escandalizava ao me ver cavalgar, pois não só montava de forma impudica, como meu vestido levantava, mostrando minhas pernas até um palmo acima dos joelhos.
Papai também ensinou-me a atirar, jamais esqueço suas instruções:
_Cada um de vocês tem de conhecer sua própria arma antes de se atrever a usá-la em combate. _postulava, enquanto apontávamos para velhas garrafas de vinho. _Cada arma _continuava _atira da sua própria maneira, tem sua própria personalidade. Descubra como ela costuma lançar a bala e qual a distância que consegue alcançar, para que sua mira seja certeira!
Aprendi a atirar muito bem e passei a participar das caçadas. Não gostava de usar o mosquete, pois tinha de usar ambas as mãos e isso me desequilibrava sobre o cavalo. Preferia então a pistola, segurando as rédeas com a mão esquerda e a pistola com a direita. Uma vez, perseguíamos um obstinado javali. Nem papai, nem Marton, nem Nicolae, ou Mihail conseguiram alvejá-lo. Avancei então com meu cavalo por entre as árvores e me adiantei ao animal. Equiparei minha velocidade à dele e apontei a arma na direção de seu focinho. Ele estava a cerca de vinte e cinco pés de distância. Tão logo sua cabeça emergiu detrás de um pinheiro... disparei!... _Pah! _Seu olho estourou, fazendo sua cabeça balançar para o outro lado, como se tivesse levado um forte soco. Como viesse à grande velocidade, ainda continuou sua desabalada fuga por mais vinte pés, cambaleando e perdendo a direção para a direita, até chocar o focinho em um pinheiro e tombar pesadamente sobre o chão.
Fui então até ele e o vi em em seus últimos suspiros, tremendo e grunhido. Logo chegaram os homens e papai elogiou:
_Nossa santa Mãe!... Mas que belo tiro! Muito bem, Irina! Muito bem!...
Nicolae me olhou com uma cara fechada, como se sentisse insultado por não atirar melhor que uma mulher _pior que isso! _que sua irmã caçula! De minha parte, me limitava apenas a sorrir com altiva e vitoriosa satisfação.
Por esta época, recebemos a visita inesperada de um grande amigo de papai, János Literati! Chegou trazendo consigo o pequenino Mózes, que contava então seus nove anos. Afagando a cabeça do filho, lembro de Literati falando à papai:
_Já o estou levando comigo para trabalhar nas minas. E graças à Santíssima Mãe, que atendeu ao meu pedido de um filho homem, ainda recebi a graça dele gostar muito de nossa função. Não são todos que aguentam trabalhar com o sal.
A visita de János não era puramente fraterna, os mineiros preparavam uma grande rebelião contra o príncipe Sigismond.
_Já conseguimos o apoio dos saxões, Joszef, a rebelião será deflagrada a qualquer momento.
_No que diz respeito a mim, eu e meus homens já estamos prontos para o combate, amigo János.
De fato, a rebelião não tardou em explodir. Papai riu quando roguei para que me levasse junto com ele para a guerra. Nicolae caçoou de mim:
_Irina, você é mulher! Guerra é coisa de homens!
_Luto melhor que muitos homens! _respondi furiosa.
Nica também queria ir para a guerra, mas papai o incumbiu de defender o castelo em sua ausência. Fez isso primeiro porque sabia que, em caso derrota székely, uma possível tropa do príncipe apareceria para confiscar nossas terras e o castelo, segundo por consideração à pobre Greta, que estava grávida do primeiro filho de Nicolae. Baixa, gorducha e temperamental, Greta era a filha caçula de Béla. Papai a casou com Nicolae para ressarcir o banqueiro pelo fato deste ter recebido Vladia já violada. Desta forma, com o casamento da filha, pelo menos garantiria netos nobres.
A rebelião, porém, mostrou-se um fiasco. Parte do exército do príncipe era composto de székelys comprados com cargos e privilégios. Como se não bastasse, János Sigismond foi até Constantinopla, ajoelhar-se aos pés do sultão Süleiman e rogar por seu socorro. Süleiman atendeu à sua súplica, ajudando-o a bater os revoltosos. Recebeu em troca um antigo sonho: Erdély! Sigismond passou então a governar como príncipe, sob a tutela otomana. Para escornar o poder de nossa nação, destituiu nossos juízes eleitos, em Udvarhely e Háromszék, e pôs homens de sua confiança em seu lugar.
Papai voltou para casa magro e abatido, com cicatrizes no corpo e a vã promessa turca de que sua fé e seus direitos seriam respeitados. Na verdade, ele trazia sobre as costas uma grande carga, que só depois me revelaria. Ainda lembro de avistá-lo chegando em seu cavalo, numa enevoada manhã de outono. Com lágrimas nos olhos, corri para abraçá-lo!
_Calma, minha Irina! Calma!... Estou de volta!... _dizia enquanto me acalentava.
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