domingo, 16 de janeiro de 2011

CONSTRANGEDORA REVELAÇÃO




















Niterói, uma semana depois.
 

_Muito bem meus queridos, deixa eu dar uma olhada neste livrão aqui... _diz dona Ornella pegando o grosso diário da mãos de Gabriel e abrindo-o com cuidado.
Ivette, com as mãos unidas, esfrega os dedos, com certo nervosismo. Dona Ornella folheia a pequena relíquia cuidadosamente. Pára na página inicial da narrativa e a lê, demonstrando visível curiosidade. Começa então a sussurar o texto na língua em que foi escrito. Aos ouvidos de Gabriel e Ivette, a estranha língua soa gutural e a leitura de dona Ornella, quase o recitar mágico de uma bruxa. Por fim ela sorri, balança a cabeça positivamente e arremata:
_É... isso é húngaro!... Húngaro medieval!... Aquilo que chamamos de húgaro médio.
A dupla se entreolha e sorri. Dona Ornella continua:
_E a moçinha que escreve é bem romântica no estilo, embora um tanto pueril, se vocês não dissessem que acharam isso no baú velho de uma casa em Teresópolis, eu diria que se tratava de um antigo romance medieval. Mas um romance de um escritor ainda bem imaturo. Bem.. _suspira dona Ornella _a garota aqui tá começando a contar sua própria história, é uma espécie de autobiografia. Eu confesso que me deu mesmo curiosidade de saber o que ela escreve.
_Pois é, dona Ornella _já a interrompe Gabriel, empolgado _é por isso que nós trouxemos ele aqui. Também estamos doidos para saber o que ela conta.
Dona Ornella olha para ele e adverte:
_Mas vai levar um certo tempo para eu traduzir, tem palavras e expressões aqui que vão precisar da ajuda de meus dicionários de termos arcaicos.
_Quanto tempo? _quer saber Ivette, atônita.
_Acho que não muito _responde dona Ornella. _Penso que no próximo sábado vocês podem voltar aqui e eu já estarei com a maior parte do trabalho acabado. Eu estou aposentada mesmo e vocês me trouxeram uma coisa muito interessante para eu me ocupar.
Gabriel e Ivette sorriem animados.


Mais uma semana depois, atravessando a Rio-Niterói.

_Calma, Ivette, não vai bater na traseira desse caminhão, pelo amor de Deus! _assusta-se Gabriel.
_E você quer que eu dirija como, Gabriel? _se estressa Ivette, com uma mão direita no volante e esquerda segurando o cigarro.
Fumaçando raiva pelas narinas ela continua seu desabafo:
_Eu pensei que tava tudo certo, tudo seguro, a gente entregava apenas o primeiro diário pra ela, pra ela não se assustar, não saber das coisas rapidamente, e você me diz que ela te liga quase ralhando contigo, praticamente intimando a gente a comparecer lá na casa dela!...
_Ela deve ter descoberto algo muito sério nesse diário, pra tá agindo assim. _conclui Gabriel preocupado.
Olha então para ela e pede:
_Me dá um cigarro!...

De volta à casa de dona Ornella.

Dona Ornella olha severamente para o casal de amigos sentados à sua frente. Ao seu lado, de pé, estão dois jovens, como dois guarda-costas: um rapaz de 19 anos e uma branquinha de cabelos castanhos e escorridos, que parecia ter se perdido de sua carvana hippie. Como uma avô que repreende seus netos, dona Ornella dispara:
_Olha, em primeiro lugar, eu quero dizer a vocês que sempre fui uma pessoa de mente muito aberta. Se não fosse não teria trilhado a vida acadêmica. Não sou de me impressionar com qualquer coisa e estou longe de ser uma pessoa preconceituosa e puritana... mas o que descubri traduzindo este... romace-zinho podre!... que vocês me trouxeram... conseguiu me deixar vermelha diante de meu neto e da namorada dele...
Os dois jovens, de braços cruzados e semblante envergonhado, limitam-se a mexer os olhos de um lado pro outro. Os olhos dele, castanhos, os dela azuis. Dona Ornella prosegue seu sermão:
_De qualquer forma, nós acabamos a tradução desta obra pornográfica!... Aliás, não me admira que ela tenha sido encontrada num baú velho, porque certemante jamais seria publicada no século XVI. Certamente teriam queimado a autora na fogueira, isso se esta... coisinha imunda... não for obra de algum monge, ou advogado tarado!... Sabe, acho que até faria sucesso hoje em dia!... Vejam só! É uma estória de vampiros! Está na moda! E cheia de passagens de sexo explícito, que fariam o marquês de Sade corar!...
Ivette e Gabriel estremecem ao ouvir a palavra vampiro. Ivette apoia a testa sobre as mãos, fecha os olhos e respira fundo para não ter um chilique. Gabriel, tapa a boca com a mão, os olhos arregalados. Dona Ornella prossegue:
_Quem sabe a dona da casa que você está vendendo, Ivette, não era uma pesquisadora que pretendia ganhar fama e dinheiro com esse coisa... _pega o diário, o balança na mão e depois o joga sobre a mesa.
Ivette se mantém calada, suando frio, assim como Gabriel. Ambos meio zonzos, remoendo uma única palavra na cabeça: vampiro! Dona Ornella finaliza:
_Porém... vamos ao que interessa!... Tivemos um trabalhão mas concluímos esta... "coisa". Algumas passagens estavam latim, muitas outras em grego _muita coisa em grego mesmo! _e ainda há passagens em romeno antigo. Aliás, eu me enganei na minha primeira avaliação, o húngaro do autor é de transição, está entre o antigo e o médio. Para um livro pornográfico até que é bem rico!.. _elogia. _André, meu neto, está de férias e me ajudou, me trazendo os livros e procurando os termos para mim e a Juliana aqui _aponta para a mocinha _digitava tudo. Por causa dela, algumas passagens ficaram com um linguajar meio moderninho, mas talvez isso ajude no entendimento...
Dona Ornella pega então um bloco de folhas impressas e diz olhando para Ivette e Gabriel:
_Meus caros, confesso que não tenho cara para ler isto aqui de novo. Algum de vocês poderia fazer as honras?...
Os dois se limitam a se entreolhar. Entendendo o constrangimento da dupla, a velha professora se volta para o neto:
_André!?... _chama o rapaz, lhe estendendo o bloco de papel.
André também não se move. Juliana então se candidata:
_Eu leio! _responde já pegando a resma com ambas as mãos.
Ajeita-a então e, com sua voz graciosa de menina, começa em tom decidido...

Um comentário:

  1. hummm fico imaginando se poderá ser um texto bem ao estilo de Marquês de Sade...
    vamos aguardar...

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