sábado, 29 de janeiro de 2011

CASAMENTO


















Vênus, Vulcano e Marte, de Tintoretto.



Dividia então meu dia entre os treinos e os estudos com frei Emil. Sendo já uma mulher, possuía vários pretendentes, além de Ferencz. Todos, porém, eu recusava. Nenhum me causava interesse, além do que não aceitava a idéia de me submeter a um homem que não fosse meu pai. Papai, por sinal, não fazia objeções à minha atitude, queria apenas resguardar-me do perigo. Mamãe, assim como os parentes e amigos da família, criticavam minha demora em casar. Sempre que visitava Vladia, em Kolozsvár, ela também me inquiria sobre minha demora em escolher um marido.
_E você, Irina, quando vai resolver casar-se e ter seus próprios filhos?
Eu simplesmente lhe respondia:
_Não aprecio nenhum de meus pretendentes, Vladia! Como casar com homem sem amá-lo?... _e continuava a brincar com minha sobrinha mais nova, Lísia, que contava apenas seis meses. _Não é Lísia linda? _dizia em falsete à fofurinha, que me olhava sem nada entender, segura em minhas mãos.
Vladia me censurava:
_Você anda lendo demais estas estórias de amor tolas dos bardos, Irina.
A despeito de resistir ao casamento, desejava ter filhos. Adorava meus sobrinhos, Béla, Juliu, Sarka e Lísia. Eles eram a única coisa que ainda me fazíam cogitar um possível um marido. Béla, o mais velho, herdou o nome do pai, mas tinha saúde um tanto frágil e era a cara de Nicolae. Juliu saíra todo ao pai, tanto no corpo como no gênio. A carinhosa Sarka era uma misturinha linda de Vladia e Mila. E minha linda Lísia, herdara tudo da titia, parecia mesmo ser minha filha.
Mihail estava de casamento acertado com Mariann, que ainda contava 13 anos e era a quarta filha de Marton, um dos melhores cavaleiros de papai. Ambos já nutriam uma paixão mútua. Ela se criara nas proximidades de nosso castelo e o casamento só seria a conveniênte formalização do que já existia. Papai confiava muito em Marton e já queria formalizá-lo como vassalo. Mamãe, por sua vez, não aprovava as escolhas de papai. Ela queria cônjuges nobres para seus filhos e sabia que podia encontrá-los entre as famílias protestantes _o que era justamente o que papai não queria.
Porém, não era só papai quem não conseguia entrar em bom entendimento com mamãe, minha convivência com ela tornava-se cada vez mais difícil. Nossas gênios sempre conflitaram e sua conversão ao protestantismo acabou por destruir o pouco de afeto que ainda nutria por ela. Detestava suas reuniões com os infiéis em nosso castelo. Como ela podia trazê-los para dentro de nosso lar? Achava isso inadmissível! Não suportava a hipocrisia dos protestantes, que condenavam ao inferno todos os que não professavam sua fé, mas que eram os primeiros a cometer toda sorte de pecados, os mais vis! Como poderia então aceitar o proselitismo desses vermes?!
A desintegração final de meu relacionamento com mamãe se deu numa tarde de outono. Eu terminara de ler mais uma novela do Decameron e resolvera descer para encher meu pote de água. Ao meio do caminho, passei pela sala onde ela se reunia com seus amigos infiéis. Ela tinha o costume de manter a porta sempre fechada, toda vez que se reuniam. Nesta tarde, no entanto, estava descuidadamente entreaberta. Foi quando a flagrei!... Estava sentada absolutamente nua sobre a mesa, com as pernas vergonhosamente abertas. Ria como uma rameira, enquanto irmão Sandór _o pastor que presidia as leituras e discussões de suas reuniões _também nu, metia a mão em seu sexo, masturbando-a. Ele também chupava seu pescoço e, vez ou outra, trocava com ela deploráveis beijos, entre risos lúbricos e devassos.
Não acreditei no que vi e entrei na sala. Estavam tão entretidos que nem me notaram. Quando por fim mamãe se deu conta de minha presença, quase gritou de susto.
_Irina!... _disse quase engasgando.
Eu não tinha condições de falar nada e apenas fui me afastando, perplexa. O sórdido irmão Sandór apenas apressou-se em cobrir-se. Com os olhos vermelhos e arregalados, mamãe fazia mensão de falar, mas não conseguia. Apenas tentava cobrir-se com o vestido, que estava estendido sobre a mesa. Não suportando mais a cena, fugi dali. Então eram essas suas piedosas reuniões! Foi isso que ela fez durante todo o período em que papai arriscou a vida no campo de batalha!... Mais do que nunca, eu a odiava!...

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