
Inverno em Harghita, Transilvânia.
Cresci ouvindo falar nos vampiros, os amaldiçoados mortos-vivos, sugadores de sangue, que se escondiam nos cemitérios, estradas, cavernas e montanhas. Porém, não me importava com eles, apenas com as montanhas. Sempre amei as montanhas. Quando criança, aos cinco anos visitei o solar de tio István pela primeira vez. Ele fica praticamente ao pé dos Cárpatos. Mamãe deixou que eu fosse ver os pastores e as ovelhas, acompanhada de minha babá, Anna. Porém, o que eu queria mesmo era passear na floresta, que sempre me fascinou. A floresta e as montanhas, sempre pareceram me chamar.
Durante nosso passeio, Anna logo se entreteu com um belo e jovem pastor, o que me deixou livre para correr rumo à floresta. Corri, corri, subi a encosta até que me perdi, não sabia mais onde estava. Olhava para trás, para os lados e para frente e não reconhecia mais nada. Apenas arbustos e neve me rodeavam. Senti algo estranho. Algo mais forte que o medo, como se uma força invisível me envolvesse. De repente, ouvi soar a doce melodia de uma flauta. Olhei à minha esquerda e, à cerca de 40 pés de distância, por trás dos arbustos ressequidos e cobertos de neve, estava um rapaz. Ele descia a encosta tocando uma flauta doce. Trazia um chapéu de abas largas sobre a cabeça e seus longos cabelos não me deixavam ver seu rosto. Ele me chamou a atenção por estar com roupas de verão. Estas eram negras, mas um tanto desbotadas, o que lhes dava um certo tom acinzentado, mais em algumas partes que em outras. Subitamente ele parou. Numa atitude burlesca, virou-se rapidamente em minha direção, inclinado-se, dobrando os joelhos. A aba de seu chapéu ainda me impedia de ver seu rosto. Apenas via seu queixo e boca. Mas foi o suficiente para perceber sua compleição emaciada e pálida. Ele então sorriu, tomou da flauta e tocou uma bela, porém, intrigante melodia. Parou, sorriu de novo e me chamou com a mão, movendo levemente os dedos. Suas unhas eram um tanto longas. Instintivamente recuei um passo para trás. Com estranha satisfação ele continuava a me chamar. Fiquei com os olhos fixos nele, até ouvir um tiro de pistola ao longe. Voltei-me na direção do tiro, dois cavaleiros se aproximavam à galope.
_Irina! _pude ouvir claramente a voz de Anna me chamar.
Olhei novamente na direção do rapaz. Ele não estava mais lá. Os dois cavaleiros, um deles trazendo Anna na garupa, pararam afoitos à cerca de cinco pés de distância de mim. Anna saltou enlouquecida e me abraçou:
_Irina! Meu Deus! Irina!!!...
Então abriu meu casaco na altura do pescoço. Olhou e apalpou meu pescoço, como se querendo ver se eu estava machucada, ou se contraíra alguma doença. Então carregou-me em seus braços com força e disse desesperada:
_Vamos, meu amor! Vamos! Vamos embora daqui!... Meu Deus!... Graças a Deus!...
Um dos cavaleiros, que reconheci ser o jovem por quem Anna se enamorara, me pegou com seus braços fortes e me pôs na garupa. Anna sentou atrás de mim e meio que me pôs em seu colo. Rumamos então, à galope, de volta para o solar.
Quando chegamos, minha mãe já aguardava com o desespero estampado no rosto. Mal descemos do cavalo, ela me tomou nos braços:
_Irina!... _suspirou lívida de angústia, abraçando-me e beijando-me.
Em seguida, investigou meu pescoço como fizera Anna antes. Mudando então de humor repentinamente, enfurecida, segurou-me com força e vociferou:
Em seguida, investigou meu pescoço como fizera Anna antes. Mudando então de humor repentinamente, enfurecida, segurou-me com força e vociferou:
_Não vá mais para floresta, entendeu! Eu lhe proíbo de ir para a floresta! Nunca mais me desobedeça! Nunca mais em sua vida vá para a floresta! Nunca mais vá para lá!... _e apontou para a floresta e para as montanhas.
Com os olhos cheios de lágrimas, olhei para a paisagem que tanto amava. Mamãe então ergueu-se e voltou-se furiosa para Anna. Desferiu-lhe um forte tapa no rosto e vociferou:
_Sua rameira vadia! Eu mando lhe açoitar da próxima vez!... _o dedo apontando em riste em seu rosto.
Anna cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Mamãe me puxou então com força pelo braço, me levando de volta para dentro do solar. Tive então a impressão de ouvir o soar de uma flauta, vindo das montanhas. Olhei na direção delas, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
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