segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A PERDA DA ALMA




















Mila permaneceu no quarto todo o resto do dia. Parecia doente. Mamãe ficou de guarda, ao pé de sua cama, desde que lhe ministrara a infusão. Ao início da noite, Mila começou a contorcer-se de dor, chorando e clamando por socorro. Ao perceber que seu vestido e os lençois de sua cama estavam empapados de sangue, começei a gritar e chorar.
_Mamãe, Mila está morrendo!... Mila está morrendo!...
Sem demora, mamãe levantou-se, certificou-se da situação e depois ordenou a Vladia:
_Tire Irina daqui!
Vladia me levou para fora apressada e cuidadosa:
_Venha, Irina! Não chore! Vai ficar tudo bem! _e me dava beijos de consolo e enxugava minhas lágrimas _Mila vai ficar boa!...
Ainda pude ouvir mamãe dizer às criadas:
_Tragam água quente, rápido! Ela expeliu o embrião!
Por dias pensei que Mila fosse morrer. Tinha febre e delirava. Recebia visitas diárias de madame Dorka, que lhe ministrava poções e resas. Após uma semana de sofrimentos, ela finalmente começou a se recuperar. Estava pálida e abatida. Madame Dorka a examinava todos os dias e um dia, revelou à mamãe:
_Ela não poderá mais ter filhos, senhora... Lamento!...
Mamãe teve de ser muito cautelosa para enganar papai. Disse-lhe que Mila contraíra uma doença uterina ao beber, sem saber, um chá que a velha cozinheira, Erzsi, fazia para aliviar sua artrite. Tanto a velha Erzsi, quanto Klara, Arnira e, por fim, madame Dorka confirmaram a estória inventada por mamãe. Isso, no entanto, não deteve a fúria de papai, que derrubou copos e quebrou uma cadeira na parede, ao saber que Mila não poderia mais lhe dar um herdeiro. Pegou seu cavalo e desapareceu boa parte do dia. Ao retornar, pelo início da noite, chamou mamãe e determinou:
_Vou entregar Mila à Igreja! Assim que ela se recuperar, irá para um covento.
Mamãe não contestou, apesar de ser protestante. O segredo de Mila seria melhor guardado no cláustro. Mila, por sua vez, mesmo como com lágrimas nos olhos, aceitou placidamente seu destino. Notei que a culpa a corroía, ela queria uma rendenção. No dia que as irmãs dominicanas a levaram, chorei muito. Mihail despidiu-se dela na sala, não quis vê-la partir. Nicolae pegou seu cavalo e simplesmente desapareceu. Na hora da partida, a abracei com força e não quis soltá-la. Ela, por sua vez, me acalentava, com lágrimas nos olhos:
_Calma, minha bebezinha, calma!... Sempre escreverei para você, sempre! Lembrarei de você em minhas orações.
Foi preciso mamãe me arrancasse de seus braços, para que ela pudesse seguir viagem. Não esqueço sua imagem triste e resignada _com o lenço branco envolta da cabeça _sendo levada na carroça das irmãs. O céu estava cor de chumbo e a tarde soprava um vento frio.
Uma ira colossal se apossou de mim. Corri para a capela e acusei Jesus em altos brados:
_É tudo culpa sua! É tudo culpa sua! Você se vingou dela! Você a puniu! Você não perdoa! Você não perdoa ninguém!...
A imagem massacrada de Jesus, na cruz, mantinha-se calada, surda aos meus insultos. Foi então que o esconjurei:
_Eu rejeito você! Eu rejeito você!... Não serei sua serva! Não serei sua serva! Jamais! Jamais!...
Vladia chegou nesse instante e me acalmou:
_Não diga isso, Irina! Não diga isso, pelo amor de Deus! Venha, vamos passear no campo!... Venha, querida, venha!... _rogava cobrindo meu rosto de beijos. _Vamos passear...
Vladia pegou-me pela mão e me levou para o campo. Passeamos placidamente para além do mosteiro franciscano. Ela cantarolava doces cantigas para me acalmar. Caminhamos por horas, na tarde fria e tristonha. Em certo momento, fomos nos aproximando da floresta. Foi quando vi uma mulher em frente as árvores, distante cerca de trinta e cinco pés. Era alta e muito pálida. Aparentava seus 30 anos e olhava diretamente para nós. Usava uma camisola branca, cingida por um cordão nos rins. Seus cabelos negros esvoaçavam com o vento.
_Veja, Vladia! Quem é aquela mulher?... _indaguei apontando para ela.
Vladia parou como se batesse de frente à uma parede. Seus olhos pararam fixos na mulher e seus lábios caíram. A mulher, por sua vez, permanecia impassível, olhando para nós. Vladia então virou-se e me apressou:
_Vamos Irina, está tarde! Vamos embora! _dizia assustada, olhando para a mulher o tempo todo.
Seguimos então de volta, a passos mais rápidos. Vladia começou a sussurrar o Credo e, vez por outra, olhava para trás. Eu também olhava e via que a mulher permanecia lá, parada, nos fitando de longe. Foi quando notei que ela estava olhando precisamente para mim. Ao perceber isso, assustei-me e virei o rosto. Porém, a curiosidade me atiçou e novamente voltei o olhar. Ela, porém, havia desaparecido.
_Quem é ela, Vladia? Ela é um fantasma? _perguntei novamente.
_Não, Irina! Ela é pior que um fantasma! Muito pior!... _respondeu apreensiva. _Ela perdeu a alma!...

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