
Detalhe de Velha Fringindo Ovos, de Diego Velásquez.
O pecado de Mila e Nicolae não tardou a deixar rastro. Uma manhã, ao tomarmos o desjejum, Mila enguiou, com ânsia de vômito. Levantou-se da mesa rapidamente, correndo até à janela para vomitar. Eu, em minha igenuidade infantil, simplesmente achei nojento. Mas mamãe arregalou os olhos, como se diagnosticasse, instintivamente, algum mal muito grave. Levantou-se, pegou Mila pelo braço e começou um pequeno interrogatório. Dava para notar seu tom cuidadoso, porém inquiridor.
Papai se limitava a olhar, intrigado, continuando sua refeição. Mamãe então mandou Mila subir para o quarto, apontando o caminho autoriatariamente com o dedo. Ao sentar-se de volta à mesa, respirava ofegante, visivelmente irritada.
_O que houve, Eva? _interrogou papai.
_Nada! As cólicas dela estão fortes e ela não consegue comer. _respondeu sem demora.
_Hummm... _contentou-se papai com a resposta, voltando a comer.
Mamãe terminou rapidamente seu desjejum e levantou-se dizendo:
_Vou ver como ela está. Acho que chamarei madame Dorka para preparar um infusão para ela.
De fato, a velha curandeira foi chamada. A vi entrando, encurvada e tenebrosa, com sua bengala e o grande lenço sobre a cabeça. Mamãe e duas criadas a escoltavam. Não tardou para ouvirmos os gritos desesperados de Mila, como se estivesse sendo estuprada:
_Não! Nãaaaaao! Nãaaaaaaoooo!... _gritava horrivelmente.
Ao ouví-la em tal desespero, comecei a chorar, pois achava que ela estava sendo torturada. Vladia então me abraçou, também com lágrimas nos olhos, acalentando-me com beijos, em silêncio. O que ocorreu naquela tarde me foi revelado mais tarde por uma das criadas, Klara. Mamãe trancou-se com madame Dorka e as duas criadas, Klara e Arnira, no quarto onde eu e minhas irmãs dormíamos. Mila, que estava na cama, tão logo viu a velha bruxa chegar, já ergueu-se e foi-se encostando na parede. Sua reação defensiva era exatamente o que mamãe esperava encontrar. Sem nenhuma piedade, ordenou:
_Amarrem ela!
Mila então começou a gritar:
_Não! Nãaaooo! Se afastem de mim! Nãaaoooo!...
Porém, sabendo que se apiedar de Mila lhes renderia chibatadas, as criadas foram rápidas e precisas na missão. A agarraram com força, uma em cada braço e a imobilizaram, o que não foi muito difícil, pois eram fortes e corpulentas. Amarraram então os braços de Mila na cabeceira da cama e, em seguida, avançaram sobre suas pernas. Mila esperneava, mas as duas conseguiram separar suas coxas e deixá-la em posição de parto. A velha Dorka pode então examiná-la. Tocou seu orgão genital, observou-o por um instante e, em seguida, movendo a cabeça negativamente, diagnosticou:
_A jovem não é mais virgem!
O rosto de mamãe ficou vermelho de fúria. Inquiriu então:
_Ela está grávida?
Madame Dorka apalpou a barriga de Mila e não tardou a dar a resposta:
_Sim!
As lágrimas e soluços de Mila não foram o suficiênte para conter a ira de mamãe:
_Sua ordinária! _vociferou já disferindo o primeiro tapa no rosto de Mila. _Vagabunda! Desgraçada!...
Mila tentava se desviar de suas mãos, em vão. Mamãe então encheu a mão com seus cabelos e interrogou:
_Quem é ele! Fala, sua prostituta! Quem é ele!... Vou mandar castrá-lo!...
Mila, obstinada, se recusava a delatar seu amante:
_Não! Nãooo!...
Foi quando a sabedoria da velha curandeira contornou a situação:
_Senhora, não vamos perder tempo. Deixe que eu lhe prepare uma infusão... e todo mal será dela expelido hoje mesmo...
Mamãe, com os olhos flamejantes de fúria, escorrendo lágrimas como cera quente, pareceu conter-se:
_Está bem! Seja rápida!...
Madame Dorka puxou então um punhado de ervas de sua sacola rota e dirigiu-se com as criadas para a cozinha. Mamãe foi com elas, trancafiando Mila no quarto, como uma prisioneira. Pouco mais de um quarto de hora, estavam de volta. Klara e Arnira voltaram a imobilizar os braços e pernas de Mila, para que ela não se mexesse. Com uma velha caneca de cobre, Madame Dorka aproximou a infusão dos lábios de Mila. Ela desviava o rosto, recusando-se a beber. Mas mamãe segurou sua cabeça com uma chave de braço e, abrindo sua mandíbula como a de um animal, ordenou à curandeira:
_Dê-lhe a infusão!
Madame Dorka então derramou a infusão na boca de Mila, que foi obrigada a engolí-la tal como a um veneno punitivo. Mamãe puxava sua cabeça para trás, para que a infusão desçesse por sua garganta. Mila, derramando lágrimas dos olhos e escorrendo a infusão pelos cantos da boca, rendia-se ao amargo e humilhante suplício.
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