domingo, 9 de janeiro de 2011

A CASA






















Teresópolis, 09 de julho de 2010, 09:15 da manhã, no hotel.



_Oi, amor!... (ri). Cheguei ontem... (ouve as queixas do outro lado). Me perdoa, amor... (ri) é que eu tava exausta! Olha, dormi das duas da tarde até as seis, direto. Quando acordei, só dei um passeiozinho à noite, para respirar um ar e depois entrei de novo pra dormir. Acordei ainda agora. (Ouve, mastigando). Tudo bem ai com a casa? (escuta por um tempo...). Sei... Humm... (morde uma torrada). Vou já sair daqui do hotel e passar ai. Deixa eu acabar de tomar meu café... Um beijo!... Até daqui a pouco, amor!...



Na casa.


_Olha vocês tomem cuidado com esses objetos, porque eles são antigos e caríssimos! _repreende Antônio, atento ao serviço dos arrumadores. _Segurem esse quadro com-cui-da-do, viu!... Um quadro desses vale uma fortuna!...

_Pode deixar seu Antônio! Vamo lá, Pedrão!... Levanta!... _se empenha Paulo incentivando o companheiro, que não resiste em comentar, após se distanciarem um pouco:

_Essa bicha é muito chata!
_Chata é minha pica, isso é muito é fresco mesmo! Nunca ouviu falar em bicha velha? Bicha velha, gorda e fresca, é mole?...
Alheio aos comentários, Antônio se alegra ao ver o Porsche branco de Ivette estacionar. Suspirando satisfação, vai recebê-la cheio de saudade e carinho:

_Meu amooor!...
Ivette baixa o vidro do carro, sorrindo por detrás de seus óculos escuros, plena de satisfação em vê-lo. Salta então, bate a porta e corre para abraçá-lo:
_Antônio, querido!... Quanto tempo!...
_Meu bebê, você tá tão linda, como sempre!... _elogia-a, tocando-lhe delicadamente o queixo com o dedo.
_Então, vamo lá?... _apressa-se ela.
_Vamos, meu amor, já estamos arrumando tudo! Deu um trabalhão ontem, tava tudo sujo, empoeirado, mas agora já estamos colocando tudo no-seu-de-viii-do-lugar!...
_Os móveis são originais, você me falou... _comenta ela, vislumbrando o aspecto um tanto sobrenatural do solar de padrão germânico, todo feito em madeira.
_Originalíssimos!... Entra, meu bem, olha só esta sala!...
Ivette olha a ampla sala do casarão, que mais parecia remontar ao século XV.
_Meu Deus!... Quantos séculos tem essa casa?... _se assusta ela.
_Dizem que ela foi construída por volta de 1850, por um estrangeiro, um alemão, ou austríaco, não sei bem. Há quem diga que ele era aparentado com Dom Pedro II.
_Humm... _limita-se a gemer Ivette, olhando cada detalhe do casarão.
_Reza a lenda _continua Antônio _que ele era de família nobre e muito rico, mas vivia sozinho e não deixou herdeiros, por isso, o coronel José Barroso, que era um daqueles barões do café, comprou a casa.
_Sei... _comenta ela, olhando com estranheza para a cabeça empalhada de uma rena, solene, com sua imensa galhada.
_A casa foi da família Barroso por uns quarenta anos, até que foi a leilão, em 1930, por causa da crise da bolsa de Nova York, cê sabe meu amor, não preciso explicar História pra você...
_Sei... Nossa... _responde Ivette meio sem voz, impressionada com aquela casa que lhe parecia mesmo "mal assombrada".
_Ela teve vários donos ao longo do século XX _prossegue Antônio _sendo que a última dona foi uma mulher do leste europeu, que infelizmente conheci muito en passant, chamava-se Irina. Ela era alta, ruiva, linda!... Muito elegante. Chiquéééérrima!!!... Tinha um casaco de pele de castor que eu amaaaava!!!...
_Ai, Antônio!... _ri-se Ivette. _Você é uma graça!...
_É verdade!... _certifica Antônio. _Dona Irina era uma diva, uma lady!... Sabe... hmmmmmrr... _suspira  Antônio, de deslumbre, como se apreciasse um perfume _quando me lembro dela, às vezes me vem a impressão... de que o tempo pra ela não passava. Todas as vezes em que a vi... _Todas! Até mesmo a última vez!... _Ela me pareceu jovem! Linda!...
_Nooossa! Você a ama, heim, Antônio! _riu-se Ivette.
_Digamos que, ao meu modo... fiquei apaixonado!... _responde Antônio, apertando os olhos num largo sorriso.
Ambos riem e Antônio prossegue:
_Ela vivia só. Não tinha filhos, pelo que eu saiba. Aliás... _abaixa ele o tom de voz _Era comum ela receber umas moças bonitas, elegantes, da alta sociedade, sabe...

_Uau!... _graceja Ivette, subindo as escadas de madeira, que rangem sob seus saltos. _E que fim teve essa mulher tão anti convencional?... _questiona, pensando consigo mesma: "_Que tipo de louca moraria aqui nesse castelo mau assombrado?".
_Ela morou aqui de 77 até 86, pelo que eu me lembro _continua Antônio. _De 86 em diante, ela começou a viajar para o exterior e só aparecia aqui uma, ou duas vezes por ano. A última vez que a vi foi em 1991. Isso mesmo, há quase vinte anos!... Desde então a casa foi fechada, só sendo visitada por uma equipe de manutenção, de seis em seis meses. Mas a equipe deixou de vir faz sete anos. Por isso que tivemos praticamente de restaurá-la.
_E quem tá vendendo a casa? _investiga Ivette.
_Uma companhia de imóveis francesa. Ela deve ter vendido a casa pra eles.
_Hummm... _geme Ivette. _E agora, eu tenho de convencer alguém tão exótico quanto ela a comprar este elefante branco. Ou quem sabe encontrar alguma associação de parapsicólogos, pesquisadores de fantasmas, à procura de uma casa mal assombrada! _conclui rindo-se.
_Ah, amor! Tenha a santa paciência! _protesta Antônio.
_Desculpa, amor!... _ri-se Ivette. _Me perdoa, vai! _suplica abraçando o velho amigo.

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