
Ao longo de minha infância, em diversos momentos, encontrei vampiros em meu caminho. Lembro de certa viagem que eu e meus pais fizemos à Kolozsvár. Era outono e eu estava com oito anos. Em certo momento, paramos perto de um riacho, para que nós e os cavalos pudéssemos beber água e nos recompor. O ritual foi o mesmo de todas as viagens, primeiro bebemos água. Depois _enquanto o cocheiro dava de beber aos cavalos _fizemos nossas necessidades fisiológicas escondidos na mata. Primeiro eu e meus irmãos, depois meus pais, por último o cocheiro e o guarda. Enquanto meus pais estavam na mata, eu me afastei um pouco do coche e me entreti a colher pedrinhas. De repente, senti como se alguém estivesse atrás de mim, me observando. Voltei-me para trás e vi uma mocinha, em cima de uma imensa pedra caída à beira do riacho. Ela devia ter 12 anos, era pálida, tinha cabelos castanhos, soltos, sem trato, vestia-se apenas com uma rústica túnica de lã, amarrada à altura dos rins, que lhe descia até os joelhos, e uma capa azul escura, também de lã. Notei que calçava sandálias, que se amarravam em tiras em suas pernas.
Com seus olhos castanhos, de brilho opaco, ela olhava para mim como uma criança que acaba de acordar e se depara com algo inesperado, que lhe causa curiosidade. Não senti medo, mas sua tez por demais pálida, sem brilho, me causava certo mal estar, como se ela fosse doente. Não falou absolutamente nada para mim e nem eu para ela. Ficamos nos olhando durante vários minutos, até que mamãe me chamou. Voltei-me na direção de seu chamado e, quando olhei de volta para a mocinha, ela não estava mais lá.
Mamãe me recebeu novamente com ralhos:
_O que estava fazendo afastada de nós? Já disse para não fazer isso! _esbravejou me puxando pelo braço.
_Só estava vendo a menina pálida! _respondi choramingando.
_Que menina pálida?
_A que estava ali me olhando, em cima daquela pedra!...
_Não há ninguém ali e não quero que separe de nós, não permito que converse com ninguém, entendeu! Não fale com estranhos! Não se aproxime de estranhos!... _vociferou.
Em seguida entramos no coche. Ao ver mamãe enfezada comigo, papai intercedeu:
_O que ela fez, Eva?
_Se pôs em risco novamente, se afastando de nós!
_Calma, Eva! _tranquilizou-a papai _Rezo sempre à São Cristóvão antes de seguirmos viagem.
_Não creio mais nessa idolatria! _rebateu mamãe.
Papai espantou-se e a inquiriu:
_Converteu-se aos luteranos?
_Sim! _respondeu ela sem pejo. _E acho que você deveria fazer o mesmo! Assim como fizeram István, seu irmão e Mónika, sua cunhada, esposa dele.
_Você está louca! _vociferou papai _Jamais renegarei a fé de meus ancestrais pela falsa fé dos infiéis!...
_Falsa é a fé que você devota aos santos e à imagens! Eles são ídolos! São contrários à doutrina de Jesus! _acusou mamãe.
_Eles são a lembrança dos mártires e nossos protetores! _defendeu papai.
_Isso é mentira pregada pelos padres e pelo papa, que são falsos profetas! _rebateu mamãe.
_Falsos profetas são os infiéis! Almas perdidas que se tornarão vampiros! _bradou papai.
_O Diabo não tem poder contra a verdadeira fé! _pregou mamãe.
_A verdadeira fé é a da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana!... _pavoneou papai.
E continuaram sua discussão ao longo de quase toda viagem. Eu nunca gostei dos infiéis, sejam luteranos ou calvinistas, sempre defendi a tradição de meu pai. A despeito disso, nunca me apeteceu a fé cristã. O cristianismo opõe a cruz à espada. De minha parte, sempre achei a espada um objeto sagrado. A espada é como se fosse nossa alma, quando ela tomba, tombamos com ela.
gostei desse capítulo. a questão da fé é mesmo algo bem complexo e polêmico.
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