sábado, 22 de janeiro de 2011

O PECADO ORIGINAL



















Detalhe de O Pecado Original, de Michelangelo.





Infelizmente para papai, menos de seis meses depois da viagem à Kolozsvár, presenciei algo que comprometeria absolutamente seu contrato. Numa tarde de verão, à hora da sesta, estava passeando pelo castelo. Não conseguia dormir após o almoço. Ficava então perambulando pelos corredores e salas. Numa atitude absolutamente improvável, resolvi ir à capela. O que definitivamente não era o meu costume, pois nunca fui dada à religião. Lá entrando, ouvi sussurros e gemidos que vinham da pequena sacristia. Aproximei-me na ponta dos pés... A porta estava entreaberta. Vi uma cena que me deixou desconsertada: Mila estava sentada sobre pequena mesa, de pernas abertas, com o vestido levantado. Enquanto isso, Nicolae se encaixava nela pela frente, com as calças até os joelhos. Foi como se um raio caísse sobre mim e me torrasse da cabeça aos pés. Meus irmãos cometiam incesto!...
Estavam tão entregues ao seu pecado, que sequer me perceberam. Suas bocas estalavam beijos sôfregos que exalavam paixão. Mila abraçava Nicolae como a mais desesperada das amantes e este a possuía com a gula de um marido que acabara de chegar da guerra. O calor que emanava dos dois parecia consumir a tudo em volta, inclusive a mim. Seu furor deixava claro que seu pecado não era recente, mas há muito praticado.
Fiquei tomada. Era como se meu corpo inteiro se inflamasse. Como se a própria serpente estivesse me oferecendo o fruto da árvore proibida. A cena me queimava. E não era a imagem viril de Nicolae que me perdia, mas... o pecado!... A abominação! A ignomínia! A perdição em si!... Crescera vendo Mila como a irmã mais velha, obediente, zelosa, que cuidava de mim, de Vladia e Mihail, por vezes, de forma severa. O exemplo de filha para mamãe. Não foram poucas as vezes que ouvi mamãe falar:
_Siga o exemplo de Mila!
Mila era a própria antítese de Nicolae, sempre impetuoso, dado às criadas, às caçadas e aos treinos de luta e espada. O lugar de Nicolae era bebendo com os soldados, o de Mila, era na capela, ajoelhada, de mãos unidas, recebendo a hóstia em suas mãos.
Ver os dois em ato de incesto era como ver o anjo se entregando ao demônio, o bem sucumbindo ao mal. Mila não apenas se despia de suas roupas, mas do pudor, da moral, da fé que a santificava. Sua imagem de pureza abria pernas voluptuosas, revelava formas tentadoras, mostrava a carne debaixo da virtude, se entregando ao pecado venal.
Tudo isso fazia com que aquela cena tivesse sobre mim o poder de uma iniciação. Aquilo não era nada parecido com o que eu já presenciara. Nada como a cópula dos animais, como os flagras da falta de vergonha dos criados _que eram pouco mais que os próprios animais. _Aquilo era abrir a larga via que conduzia à perdição e _confesso! _eu estava tentada a entrar.

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