domingo, 13 de novembro de 2011

RETIRADA



























Como eu imaginava, as tropas do príncipe reagiram de forma supersticiosa aos meus ataques. Segundo me informou Ivan, todos os batalhões _todos! _passaram a carregar colares de alho no pescoço. János Sigismond estava possesso! Tomado por terrores ancestrais, seu exército passou a sofrer sucessivos ataques. Agora não mais de vampiros, mas de seus velhos conhecidos, os székelys! Chuvas de balas e setas vararam os corpos dos temerosos soldados. Os ataques faziam parte de meu plano com Mihail: quando as tropas esperassem vampiros, encontrariam székelys, quando esperassem székelys, seriam assaltados por vampiros. Os novos ataques de meus irmãos foram rápidos e mortíferos, acontecendo sem que as tropas do príncipe esperassem. A notícia da inesperada investida chegou à Gyulafehérvár.
Sentindo-se ultrajado, Sigismond enviou um novo batalhão para combater os rebeldes. Mais de trezentos e cinquenta homens adentraram a floresta ao cair do crepúsculo. Ainda os vi chegar, apressados e arrogantes. Fazendo-me invisível a seus olhos, os vi passar valentes diante de mim, pela alameda. Ri-me de sua petulância. Cuidaria dela sozinha, poupando o suor de meus irmãos. Tão logo vi as costas dos soldados, simplesmente fechei os olhos e senti o cheiro dos lobos. Eles estavam em sua época de acasalamento, competitivos e ferozes. Senti seu cio e sua ferocidade e soltei um longo uivo:
_Owuuuuuuuuuuuu-uul-uul-uuuu!!!...
Imediatamente, oito alcatéias atenderam ao meu chamado e obedeceram a ordem de meu coração. Em menos de um quarto de hora, elas formaram um pequeno e feroz exército, que emergiu das profundezas da floresta, bufando ar frio, e cercou a tropa, três em cada flanco. Rosnando e mostrando suas ameaçadoras presas, as feras foram pouco a pouco afunilando seu cerco. Os cavalos começaram a relinchar, amedrontados. Também tomados pelo medo, os homens puxaram suas pistolas e começaram a atirar. Mas ao contrário do esperado, os tiros apenas serviram de sinal para que os lobos pulassem sobre os cavalos, atacando-os. Aterrorizados os animais dispararam. A tropa perdeu o controle. Gritando de desespero os homens batiam suas montarias umas contra as outras. Aqueles que caiam, ou eram pisoteados pelos cascos dos cavalos que vinham atrás, ou imediatamente atacados pelos ferozes lobos, que rasgavam sua carne sem piedade. Pelo menos trinta homens foram pisoteados e outros vinte devorados.
Diante deste espetáculo terrível, a única reação dos demais foi tocar o galope e fugir. Sentindo ter alcançado meu objetivo, acalmei a sanha de meu "exército" e o fiz se afastar pouco a pouco. Rosnando e babando, suas ameaçadoras silhuetas desapareceram em meio as sombras e à bruma da noite, que começava a cair.
Levou algum tempo para que a tropa recuperasse seu espírito e organização. Quando isso aconteceu, montaram acampamento. Eu, porém, não estava disposta a deixá-los dormir. Fiz uma coruja branca piar assustadoramente sobre eles, durante toda a noite. Vários soldados permaneciam despertos, assustados, sem conseguir dormir. Porém, esta foi apenas a primeira noite. A segunda viria a ser pior... Dois homens ficaram de guarda em volta da fogueira, um velho soldado de barbas longas e um jovem magro e covarde. Tremiam o tempo todo, olhando para todos os lados, com seus mosquetes em punho. Eu sabia que não precisava de muito para fazê-los provocar uma tragédia. Sendo assim, simplesmente sai de meu corpo e, ainda invisível, ecoei minha voz sussurrante sobre suas cabeças:
_Viilmooos!... _chamva doce e lúgubre pelo jovem. _Viilmooos!...
Ele tremia todo. Foi a vez então de atormentar o velho:
_Gergelyyyy!...
Amedrontados, os dois se erguerem, pernas tremendo, armas em punho. Sentindo-os propensos a atirar no que quer que vissem, emergi da escuridão, visível e espectral, flutuando no ar. Ao me avistarem, ambos soltaram um grito de pavor e atiraram. Sem me importar com as balas, que atravessavam meu corpo como se este fosse feito de vento, continuei me aproximando, chamando pelos dois:
_Gergelyyy!!!... Venha para mim, Gergely!... Estou esperando por você!...
Possesso, o velho bradou:
_Meu Deus! É a morte! É a morte!... Ela chegou para me levar!...
Saiu então correndo, desabaladamente. O jovem, por sua vez, teve um rompante de coragem e continuou a disparar. Com as mãos trêmulas, tirava o chumbo da algibeira _deixando muita munição cair pelo chão _e disparava tiros desesperados com o mosquete, gritando:
_Vá embora! Em nome de Deus! Vá embora, sua bruxa! Seu fantasma do inferno!...
Simplesmente continuei me aproximando. Ele fez exatamente o que eu queria: desperdiçou munição e acordou o resto da tropa. Os homens se levantaram atordoados, empunhando suas pistolas e mosquetes e atirando avulsamente para a escuridão. Estrategicamente, desapareci. Para minha satisfação, mais dois desafortunados foram atingidos por seus próprios companheiros, caindo mortos sem saber por que, ou por quem tinham sido atingidos.
A manhã chegou cansada e tensa para a pobre companhia. Cerca de trinta deles resolveu deserdar, tomando o rumo de volta para casa. Entre estes, estavam o velho e o jovem que estavam de guarda na noite anterior. Os demais, que ainda permaneceram fiéis às ordens de seu capitão, se apressaram em seguir adiante. Os deixei cavalgar durante o dia, os queria bem cansados. Quando montaram acampamento pela terceira vez, dei a eles um presente ainda mais assustador. Foi a vez de chamar meus companheiros Florin, Ciprian, Mircea e Ioan, para uma ceia sanguinária. Primeiramente pegamos os dois homens de guarda, em frente à fogueira. Florin e Mircea se fartaram, até porque não se contentavam simplesmente em morder. Sedentos por bastante sangue, cortavam as gargantas de suas vítimas e deixavam-no jorrar. Bebiam-no então como borrachos bebem vinho de um barriu vazado.
Chegou então a vez de Ioan e Ciprian pegarem mais dois dos que dormiam. Mais sangue jorrou na noite. Por fim, para fartar minha ira e minha sede, abocanhei ferozmente a garganta do capitão, que dormia incauto. Seu sangue esguichou forte em minha boca e o bebi com extasiante prazer. Minha roupa ficou absolutamente empapada.
Por fim, para terminar nosso serviço, esquartejamos os corpos de nossas vítimas e os dependuramos, aos pedaços, em um varal improvisado por Ioan. Ao acordar, os soldados gritaram de horror ao ver seu capitão, mais três companheiros, aos pedaços, cobertos pelas moscas varejeiras. Em função disso, bateram em retirada, tomando o caminho de volta. Eu ri, com as presas à mostra e a boca e o vestido sujos de sangue, ao vê-los partir.

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