
Mergulhamos no frio e nas trevas. Imersos na floresta, seguimos a todo galope. Nada tínhamos a temer, apenas a ser temidos! Tudo à nossa volta passava com uma extrema velocidade. Nossa respiração e a dos cavalos fumegava na noite gelada. Nada se postava em nosso caminho, nem ousava! Éramos feras brutais em carreira desabalada! Espíritos tenebrosos das trevas! Vampiros!...
O dia raiou e não tememos sua chegada. A claridade se fazia, mas o sol se escondia sob um imenso céu branco. Uma espessa nuvem de neve se formava sob os cascos de nossos cavalos. Uma alcateia se aventurou em nossa direção. Rosnei, mostrando as presas! Meus companheiros fizeram o mesmo. A alcateia se dividiu em duas, nos deixando passar ao meio. Ganindo de pavor, os lobos foram-se para longe. De um ponto distante, caçadores nos observaram. Um beijou seu crucifixo, o outro fez o sinal da cruz.
Durante três dias cavalgamos à margem do Olt, como fantasmas assombrando os Cárpatos. Por fim, alcançamos o Cheile. Lá chegando, reduzimos a velocidade. Tínhamos de estar atentos à chegada de uma possível expedição, tendo em vista que o exército do príncipe deveria estar procurando székelys até nas cavernas. Paramos para alimentar e dar de beber aos cavalos. Os deixamos descansar e nos abrigamos à sombra de uma pequena gruta.
Ion e seus companheiros eram realmente aterradores, tiraram pedaços de uma estranha carne ressecada de dentro de suas toscas bolsas e começaram a devorar como feras. Tomei conhecimento do que estavam comendo quando Rudolf me estendeu um pedaço _uma mão! _oferecendo-o com a gentileza lhe era cabível: _Gruwrm... _grunhiu. _Apenas meneei negativamente a cabeça. Abri minha bolsa e tirei um naco de leitão assado e um pedaço de pão. Ainda não estava disposta a ser uma completa fera.
Ion e seus companheiros eram realmente aterradores, tiraram pedaços de uma estranha carne ressecada de dentro de suas toscas bolsas e começaram a devorar como feras. Tomei conhecimento do que estavam comendo quando Rudolf me estendeu um pedaço _uma mão! _oferecendo-o com a gentileza lhe era cabível: _Gruwrm... _grunhiu. _Apenas meneei negativamente a cabeça. Abri minha bolsa e tirei um naco de leitão assado e um pedaço de pão. Ainda não estava disposta a ser uma completa fera.
Outros dois dias se passaram sem que encontrássemos gente. Ao meio do terceiro dia, no entanto, fomos presenteados pela súbita visão de um grupo de soldados. Eu fui a primeira a vê-los em minha mente. Parei e fiz sinal para Ion e seus companheiros também parassem. De olhos fechados, os via cavalgando em marcha cansada. Eram exatamente trinta homens. O que demonstrava que o príncipe realmente temia por um possível exército rebelde escondido no Cheile. Não demorou para que meus monstruosos companheiros também os vissem. Fecharam seus olhos e começaram a fungar. Seus poderosos narizes já farejavam sua presa. Ion então falou:
_Estão a menos de duas horas de viagem, marquesa.
_Vamos cavalgar em marcha rápida, mas pararemos antes de alcançá-los. Parem ao meu sinal.
_Sim, marquesa. _concordou Ion.
Seguimos rápido adiante, até que o som dos cascos dos cavalos inimigos nos soassem como impertinentes gotas de chuva. Quando senti que estavam bem próximos, dei ordem para parar e instrui:
_Não os atacaremos frontalmente, mas em escaramuça. Eles vêm a passo lento, estão visivelmente abatidos pelo inverno e por sua jornada. Vamos matar o quanto pudermos e capturar apenas três, para nos alimentar e criar terror nos sobreviventes. Eles estão armados de pistolas e mosquetes, temos de ter cuidado, agir rápido. Os cavalos se assustarão com minha presença e se descontrolarão, demorarão a atirar por conta disso. Só os ataquem quando notarem sua total desorganização.
_ Iremos todos? Quem cuidará dos cavalos? _perguntou Fiodor.
_Rudolf, você ficará! _determinei.
_Sim, marquesa. _obedeceu o monstro.
Ion completou:
_Não se preocupe, amigo, traremos um pouco de comida para você.
Saltamos então dos cavalos e os deixamos à sombra de um rochedo. Havia arbustos com os quais podiam se entreter. Rudolf sentou-se próximo deles. Eu e os demais seguimos em frente, cobrindo nossos rostos com o capuz de nossas capas. Demonstrando larga experiência vampírica, Ion e seus amigos logo subiram nos rochedos, andando sobre eles como imensas aranhas predadoras, escondidas pelas sombras.
Não demorou para que a tropa surgisse à minha frente. Apesar da distância, os cavalos frearam e recuaram instintivamente, tão logo me viram. Notei a surpresa dos homens com o súbito temor dos animais. Resolutamente, a passos calmos mas precisos, continuei me aproximando. Os cavalos relinchavam, recuavam e estremeciam. Os homens tentavam acalmá-los. Consciente de que eu era a causa de seu temor, o capitão levantou a mão, e bradou em magiar:
_Quem vem lá?!
Nada respondi, apenas prossegui calmamente. Ouvi um dos homens falar alto:
_É apenas uma mulher!
Os demais começaram a cochichar entre si. Podia ouvir o que falavam: "_É uma vampira! Veja como os cavalos estão assustados!" _temia um. "_Bobagem! É uma rameira, vamos nos divertir com ela!" _se empolgava outro. Um terceiro conjecturava "_Pode ser uma cigana. Devemos ter cuidado, ciganas são feiticeiras." _Outro ainda, demonstrava perversa expectativa "_Pode ser uma viajante perdida, podemos fazer o que quiser com ela!..."
Eu simplesmente continuava minha serena marcha. Os cavalos recuaram mais um passo. Quando já estava à cerca de vinte e cinco pés de distância da tropa, receoso, o capitão ameaçou:
_Pare, ou eu atiro!
Parei. Baixei então o capuz e mostrei o rosto. Este estava deveras branco, devido aos dias em que passei em contato direto com o frio do inverno. Meus olhos azuis se destacavam como diamantes. Os cochichos aumentaram. Os cavalos se agitavam, tremiam e resfolegavam. O comandante indagou em voz alta:
_Quem é você, mulher?
Em resposta, estendi os braços para frente, abri as mãos e convidei em voz sussurrante:
_Venha!...
Apavorados, os cavalos começaram a fugir ao controle, empinando-se e relinchando. Chegou a vez dos soldados estremecerem:
_Vampira! Vampira! É uma vampira! _exclamavam vários ao mesmo tempo.
O comandante ainda tentou acalmar seu exército:
_Calma! Não se dispersem! Calma!
Com mais ênfase, agora já realmente encantando minha vítima, voltei a convidar, em voz mais alta:
_Venha!... Venha para mim...
Ele começou a sentir-se confuso, não compreendendo o que se passava consigo. Desatei o laço de minha capa e a deixei cair, mostrando-me apenas de vestido. Ele arregalou os olhos, tomado por minha beleza. Vários outros soldados também caíram sob meu encanto. O vento soprava um pouco forte, assobiando e esvoaçando meus cabelos. Voltei a me aproximar, pé ante pé, precisa como o lince, pronto para dar o bote.
_Venha!... Venha para mim... _continuava a convidar.
Fora de si, o comandante desapeou e veio em minha direção. Assustado, seu cavalo fugiu. Os demais animais se descontrolaram totalmente, fazendo grande alvoroço e desnorteando seus donos, que procuravam desesperadamente controlá-los. Ainda ouvi um soldado gritar:
_Capitão Ferenc!... Pare! Não vá até ela! Capitão Ferenc!...
Alucinado, o capitão prosseguia, até finalmente se pôr diante de mim, olhando-me nos olhos. Sedutoramente, envolvi seu pescoço com minhas mãos, me aproximei como se fosse beijá-lo e... finquei minhas presas em seu pescoço!... O sangue espirrou em jatos finos, porém fortes, que mancharam a neve de vermelho. O soldado que tentara salvar o capitão então gritou:
_Vampira maldita!... Volte para o inferno!...
Em seguida puxou a pistola e atirou desastradamente, acertando em cheio a cabeça de seu comandante. O tiro saiu-lhe pelo olho esquerdo, o que deixou claro que a maldição não mais se ocuparia daquele corpo. Podia ficar tranquila quanto a isso. Já saciada, larguei o corpo do capitão e o deixei tombar na neve. O sangue borrava tudo, de minha boca até o meio do vestido. Neste momento, talvez preocupados pelo tiro, Ion e seus amigos caíram sobre a tropa. Anton, o mais afoito, quebrou a pata dianteira de um cavalo, ao cair sobre sua presa. Demonstrou, contudo, sensibilidade ao pobre animal e, com a "delicadeza" que podia se esperar de alguém de sua natureza, o matou com um murro na cabeça. Os outros, por sua vez, tomavam soldados pelos braços e pés, como se fossem meros bonecos de pano, recheados de feno, e os atiravam, de um lado para o outro, contra seus companheiros. De dois a três homens eram derrubados ao mesmo tempo.
A despeito do tamanho, meus monstruosos companheiros foram rápidos e certeiros. Cumprida sua destrutiva missão, logo voltaram a subir nos rochedos, levando consigo aqueles que seriam seu repasto. Estes gritavam desesperados. Diante de tão aterrador espetáculo, os soldados se apressaram em fugir, alguns a pé, outros montados. Cavalos sem cavaleiros corriam em disparada. Um dos animais correu arrastando seu ocupante, que tinha o pé preso à sela pelo freio.
Com os dentes manchados de sangue, sorri e ri ao vê-los fugir. Era minha primeira vitória.
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