
Seguimos viagem imediatamente. Na manhã seguinte, topamos com outro carroção cigano. Ivan conversou alegremente com seu condutor, qualquer coisa lá em sua língua. Despediu-se e prosseguimos. Porém, fez questão de avisar-me:
_Não se preocupe mais, Irina! Este meu irmão avisará aos outros que estamos nos mudando de estadia. Seus irmãos saberão em breve.
Sorri tranquila e dediquei-me apenas a apreciar a paisagem de inverno. Nos abastecemos em Targu e chegamos em Kolozsvár pouco antes da hora do almoço, após três dias de viagem. Fomos direto à casa de Béla. Lá chegando, dois guardas armados de lanças impediram minha entrada e logo questionaram asperamente:
_Quem é a senhora e de onde vem?
_Sou irmã de Vladia, sua senhora. Diga a ela que Irina está aqui e quer vê-la e ela me permitirá entrar.
O guarda olhou para trás, para uma jovem criada que já espiava por trás da porta entreaberta. A criada fechou a porta e a ouvi correndo pela sala. Enquanto ela não voltava, olhei em volta, reconhecendo a cidade que vira quando criança. Sempre burguesa e barulhenta, assim era Kolozsvár. Carroças e carruagens indo e vindo, para lá e para cá, mercadores e funcionários públicos perambulando apressados, como sempre. De repente, a porta abriu-se novamente, estalando sua fechadura. A criada reapareceu meneando positivamente a cabeça para o guarda. O guarda então voltou-se para mim e respondeu:
_Minha senhora irá recebê-la.
Voltei-me então para Ivan e ele apressou-se em dizer:
_Não se preocupe comigo, aproveitarei para comprar e vender algumas mercadorias. Estarei aqui de volta ao anoitecer.
_Está bem. _concordei.
Acenei com a cabeça para os guardas e eles me deram passagem. A criada abriu a porta e entrei na mansão. Ela não parecia de forma alguma mal cuidada, bem ao contrário, continuava mantendo o luxo de costume. Mal entrei, a criada abandonou sua função de conduzir-me e correu até três crianças que me olhavam desconfiadas.
_Vão brincar em outra sala, vão... _pedia baixinho, afobada.
Olhei para elas. Eram um menino de uns dez anos, uma menina de cerca de oito e uma pequenina que aparentava ter quatro aninhos. Sorri!... Há quatro anos não via meus sobrinhos! Fui até eles.
_Oi!... _disse abaixando-me e sorrindo. _Lembram da tia Irina?... Hum...
A pequena Lisia, que estava a minha cópia quando criança _ruivinha e de grandes olhos azuis _afastou-se assustada.
_Lisia!... _disse em falsete. _Vem com tia, vem!... _chamei estendendo os braços.
A fofurinha foi para trás da irmã mais velha, assustada. Percebi que eles ainda estavam me estranhando, certamente não recordavam de mim. Ergui-me sorrindo e disse à criada:
_Tudo bem. Leve-me até Vladia.
Fui levada direto à sala de jantar, onde uma Vládia muito ansiosa me aguardava, sentada à mesa. Mal me viu, levantou-se e veio me abraçar:
_Irina! Irina!...
Abraçei-a e choramos juntas por um momento. Como fizera Nicolae, ela passou as mãos sobre meu rosto como que não acreditando que eu estava diante dela. Ao acalmar-se um pouco falou:
_Irina, venha comigo. Alguém também quer rever você!
Pegou-me pela mão e conduziu-me até o antigo escritório de Béla. Para minha surpresa, bem vestida e cuidada, apesar da aflição estampada no olhar, Mila me esperava.
_Irina!... _disse quase num suspiro e levantou-se imediatamente para me abraçar.
Choramos as três o nosso reencontro. Depois, mais calmas, tomando vinho, começamos a conversar. Vladia, evidentemente, perguntou-me o mesmo que Nicolae e Mihail.
_Irina, onde esteve este tempo todo?
_Fugi da casa de tio Istvan. Ele e tia Mónika traíram papai.
_Soubemos disso. _disse Mila.
Continuei:
_Encontrei um grupo de ciganos e eles me levaram até Oanna Danesti, uma nobre de Brasov, que me acolheu. Ela é bem relacionada, era amiga pessoal do sultão Soleiman, a quem conheci pessoalmente.
Mila sorriu impressionada, pondo a mão sobre a boca.
_Meu Deus!
Vladia então começou a contar-me o que se sucedera com ela e Mila.
_Coisas horríveis aconteceram depois que você sumiu, I.
_Eu soube, Mika me contou.
Mila interveio:
_Mas ele não deve ter lhe contado os detalhes. Após papai ter sido posto fora da lei, conde Vladmir começou uma busca desesperada por você. Seus homens, junto com soldados do príncipe, foram até o convento onde eu estava. Chegaram exigindo me ver. As irmãs já estavam avisadas do que estava acontecendo, os ciganos as informaram. Madre Gabriella pediu que eu fugisse pela passagem secreta, que ia do porão até a pequena capela, fora do mosteiro. O porão era acessado a partir de uma porta, na dispensa. Eu e duas irmãs fugimos por ali. A madre trancou a porta atrás de nós. Ainda ouvimos os homens chegando e gritando com ela.
_Saia da frente, queremos a filha do marquês!
_Ninguém passa por esta porta sem minha ordem! _desafiou a madre.
Ela e oito irmãs se puseram como uma barreira sobre a porta, como me contaram mais tarde, outras irmãs que assistiram a tudo e sobreviveram ao massacre que se seguiu. Diante da obstinação da madre, o capitão ordenou:
_Preparar para abrir caminho!
Eu sabia que eles iam atirar. Desesperei-me em salvar madre Gabriella, a quem amava muito.
_Não!... _gritava como uma criança, teimando em voltar para defendê-la.
Mas as irmãs que me acompanhavam me detiveram:
_Não, irmã! Venha!... _gritava a gorda irmã Tereza, quase rasgando-me o hábito ao me puxar. Ouvi os soldados engatilharem e o capitão dar a ordem final:
_Fogo!
Uma saraivada de tiros perfurou a porta. Eu gritei! Adentramos o mais rápido possível a pequena porta de madeira. Irmã Paula a fechou e trancou com as mãos trêmulas. Chorei desesperada e irmã Tereza foi me consolando:
_Foi a vontade de Deus, irmã! Foi a vontade de Deus! Venha, não podemos perder tempo!
Quando chegamos na capela, mudamos de roupa. Meus cabelos compridos, que jamais cortei, ajudaram em meu disfarce. Fingimos ser camponesas, montei em um burro e as duas irmãs foram me conduzindo. Alguns soldados ainda chegaram a nos parar:
_Minha senhora irá recebê-la.
Voltei-me então para Ivan e ele apressou-se em dizer:
_Não se preocupe comigo, aproveitarei para comprar e vender algumas mercadorias. Estarei aqui de volta ao anoitecer.
_Está bem. _concordei.
Acenei com a cabeça para os guardas e eles me deram passagem. A criada abriu a porta e entrei na mansão. Ela não parecia de forma alguma mal cuidada, bem ao contrário, continuava mantendo o luxo de costume. Mal entrei, a criada abandonou sua função de conduzir-me e correu até três crianças que me olhavam desconfiadas.
_Vão brincar em outra sala, vão... _pedia baixinho, afobada.
Olhei para elas. Eram um menino de uns dez anos, uma menina de cerca de oito e uma pequenina que aparentava ter quatro aninhos. Sorri!... Há quatro anos não via meus sobrinhos! Fui até eles.
_Oi!... _disse abaixando-me e sorrindo. _Lembram da tia Irina?... Hum...
A pequena Lisia, que estava a minha cópia quando criança _ruivinha e de grandes olhos azuis _afastou-se assustada.
_Lisia!... _disse em falsete. _Vem com tia, vem!... _chamei estendendo os braços.
A fofurinha foi para trás da irmã mais velha, assustada. Percebi que eles ainda estavam me estranhando, certamente não recordavam de mim. Ergui-me sorrindo e disse à criada:
_Tudo bem. Leve-me até Vladia.
Fui levada direto à sala de jantar, onde uma Vládia muito ansiosa me aguardava, sentada à mesa. Mal me viu, levantou-se e veio me abraçar:
_Irina! Irina!...
Abraçei-a e choramos juntas por um momento. Como fizera Nicolae, ela passou as mãos sobre meu rosto como que não acreditando que eu estava diante dela. Ao acalmar-se um pouco falou:
_Irina, venha comigo. Alguém também quer rever você!
Pegou-me pela mão e conduziu-me até o antigo escritório de Béla. Para minha surpresa, bem vestida e cuidada, apesar da aflição estampada no olhar, Mila me esperava.
_Irina!... _disse quase num suspiro e levantou-se imediatamente para me abraçar.
Choramos as três o nosso reencontro. Depois, mais calmas, tomando vinho, começamos a conversar. Vladia, evidentemente, perguntou-me o mesmo que Nicolae e Mihail.
_Irina, onde esteve este tempo todo?
_Fugi da casa de tio Istvan. Ele e tia Mónika traíram papai.
_Soubemos disso. _disse Mila.
Continuei:
_Encontrei um grupo de ciganos e eles me levaram até Oanna Danesti, uma nobre de Brasov, que me acolheu. Ela é bem relacionada, era amiga pessoal do sultão Soleiman, a quem conheci pessoalmente.
Mila sorriu impressionada, pondo a mão sobre a boca.
_Meu Deus!
Vladia então começou a contar-me o que se sucedera com ela e Mila.
_Coisas horríveis aconteceram depois que você sumiu, I.
_Eu soube, Mika me contou.
Mila interveio:
_Mas ele não deve ter lhe contado os detalhes. Após papai ter sido posto fora da lei, conde Vladmir começou uma busca desesperada por você. Seus homens, junto com soldados do príncipe, foram até o convento onde eu estava. Chegaram exigindo me ver. As irmãs já estavam avisadas do que estava acontecendo, os ciganos as informaram. Madre Gabriella pediu que eu fugisse pela passagem secreta, que ia do porão até a pequena capela, fora do mosteiro. O porão era acessado a partir de uma porta, na dispensa. Eu e duas irmãs fugimos por ali. A madre trancou a porta atrás de nós. Ainda ouvimos os homens chegando e gritando com ela.
_Saia da frente, queremos a filha do marquês!
_Ninguém passa por esta porta sem minha ordem! _desafiou a madre.
Ela e oito irmãs se puseram como uma barreira sobre a porta, como me contaram mais tarde, outras irmãs que assistiram a tudo e sobreviveram ao massacre que se seguiu. Diante da obstinação da madre, o capitão ordenou:
_Preparar para abrir caminho!
Eu sabia que eles iam atirar. Desesperei-me em salvar madre Gabriella, a quem amava muito.
_Não!... _gritava como uma criança, teimando em voltar para defendê-la.
Mas as irmãs que me acompanhavam me detiveram:
_Não, irmã! Venha!... _gritava a gorda irmã Tereza, quase rasgando-me o hábito ao me puxar. Ouvi os soldados engatilharem e o capitão dar a ordem final:
_Fogo!
Uma saraivada de tiros perfurou a porta. Eu gritei! Adentramos o mais rápido possível a pequena porta de madeira. Irmã Paula a fechou e trancou com as mãos trêmulas. Chorei desesperada e irmã Tereza foi me consolando:
_Foi a vontade de Deus, irmã! Foi a vontade de Deus! Venha, não podemos perder tempo!
Quando chegamos na capela, mudamos de roupa. Meus cabelos compridos, que jamais cortei, ajudaram em meu disfarce. Fingimos ser camponesas, montei em um burro e as duas irmãs foram me conduzindo. Alguns soldados ainda chegaram a nos parar:
_Vocês viram três freiras passando por aqui?
_Sim! _respondi _Elas foram naquela direção! _apontei. _Os idiotas correram rumo à pequena floresta que cercava o mosteiro, enquanto nos apressávamos em seguir nossa viagem para cá.
_Facínoras! _revoltei-me.
Em seguida voltei-me para Vladia:
_E por que eles também mataram Béla? Qual foi a justificativa?
_Traição! _respondeu Vladia categórica.
_Como?!... Béla jamais foi um rebelde, bem ao contrário. _contrargumentei confusa.
Ela explicou:
_Facínoras! _revoltei-me.
Em seguida voltei-me para Vladia:
_E por que eles também mataram Béla? Qual foi a justificativa?
_Traição! _respondeu Vladia categórica.
_Como?!... Béla jamais foi um rebelde, bem ao contrário. _contrargumentei confusa.
Ela explicou:
_De fato, Béla nunca foi um rebelde, mas todo o dinheiro que financiava a ajuda à nossa família vinha dele. Eu o fazia ajudar.
_Como assim?... _impressionei-me.
_Não é algo que deva explicar agora, Irina. Basta dizer que alguém nos delatou. Um grupo de judeus, amigos de Béla, veio nos avisar e oferecer sua ajuda para que fugíssemos em segurança. Mas Béla infelizmente não deu ouvidos. Alegou que tinha ótimas relações com príncipe e que ser dado como foragido era validar a acusação. Este foi seu grande erro, pensar como advogado o tempo todo. Ele também acreditava demais em seu poder de argumentação, pensava que os soldados não lhe fariam mal, devido ao fato de ser banqueiro, ter muitas relações e lidar diretamente com o príncipe.
_E como vocês conseguiram escapar então? _investiguei novamente.
_Béla permitiu que eu, Mila e as crianças ficássemos na casa de Ezequiel, um de seus melhores amigos.
_Nicolae me disse que vocês estavam na igreja...
_Inventei a estória da igreja e mandei que contassem assim para ele. O que importa é que Béla não contava que quem estava à frente da tropa que aqui chegou era nada menos que Traian!...
_Como assim?... _impressionei-me.
_Não é algo que deva explicar agora, Irina. Basta dizer que alguém nos delatou. Um grupo de judeus, amigos de Béla, veio nos avisar e oferecer sua ajuda para que fugíssemos em segurança. Mas Béla infelizmente não deu ouvidos. Alegou que tinha ótimas relações com príncipe e que ser dado como foragido era validar a acusação. Este foi seu grande erro, pensar como advogado o tempo todo. Ele também acreditava demais em seu poder de argumentação, pensava que os soldados não lhe fariam mal, devido ao fato de ser banqueiro, ter muitas relações e lidar diretamente com o príncipe.
_E como vocês conseguiram escapar então? _investiguei novamente.
_Béla permitiu que eu, Mila e as crianças ficássemos na casa de Ezequiel, um de seus melhores amigos.
_Nicolae me disse que vocês estavam na igreja...
_Inventei a estória da igreja e mandei que contassem assim para ele. O que importa é que Béla não contava que quem estava à frente da tropa que aqui chegou era nada menos que Traian!...
_Aquele demômio! _irei- me.
_Sim, ele mesmo. E como era de seu costume não respeitou e nem poupou seu prisioneiro. Béla foi praticamente sequestrado e levado para um algum porão, onde foi torturado até a morte. E para deixar sua marca característica, Traian dependurou seu corpo na estrada, pouco antes da entrada da cidade, com uma placa onde se lia: Este é Béla Blascó, traidor de vossa alteza e da verdadeira fé de Jesus Cristo e mais outras acusações como avarento, lascivo e, é calro, judeu!...
Lembrei da cena que vi quando o encontrei no mundo dos mortos. Vladia continuou:
_Porém, em sua ignorância, Traian jamais considerou que todos os capitalistas de Kolozsvár, sobretudo os judeus, ficaríam revoltados com essa ignomínia. Por conta disso, passaram a armar nosso exército e até mandar homens para ajudar Nicolae e Marton. Fora isso, nossa casa passou a ser guarnecida, como você pôde constatar ao chegar.
_Sim. _confirmei.
Vladia prosseguiu:
_Agora estou sob a proteção dos banqueiros e comerciantes judeus. Não fossem eles, estaria passando privações pois, de herança, Béla só me legou esta casa, sua propriade no interior e algum dinheiro. O banco ficou para Roland, seu filho mais velho.
_Mas até quando eles lhe darão proteção, Vladia? _inquietei-me.
_Não se preocupe, Irina. Béla me acostumou a tratar muito bem seus amigos e sócios.
_O que quer dizer? _suspeitei.
_Não somos mais crianças, Irina. Não tenho nada a lhe esconder. Quando me casei com Béla ele disse, logo na noite de núpcias, que já tivera uma esposa, que lhe dera filhos e que já estavam adultos. Disse que eu seria sua jóia e sua arma, sua isca preciosa para aumentar sua rede de relações.
_Que canalha! _protestei.
_Isso não vem mais ao caso. _interrompeu-me Vladia. _Nunca amei Béla, nossa acordo era mútuo e por conta dele estou viva e bem, assim como meus filhos. Não fosse este acordo, jamais teria ajudado nossa família, pois ameacei Béla de o abandonar, caso ele não atendesse ao meu pedido. Seria realmente nefasto para ele perder seu maior investimento. Foi graças a mim que ele chegou até Sigismond, afinal quantos nobres você acha que conheço? _Vladia então exaltou-se _Você não sabe o poder que tenho, Irina. Nem Sigismond se arriscaria a tentar entrar nesta casa, sem que sofresse as devidas conseqüências. Tenho todos os judeus na palma de minha mão. Isso porque soube abraçá-los com minhas pernas.
_Não tenho direito de condená-la, Vladia. _tranquilizei-a.
_Então pode ficar aqui comigo, irmã! _convidou. _Mila já está me ajudando. Não há motivos para se envergonhar, somos muito respeitadas.
_Não posso. Não a condeno, nem tenho direito de fazer isso. Amo vocês duas, são minhas irmãs... Mas minha vida tomou outro rumo e... não posso aceitar seu convite.
_Irina, seríamos tão felizes, nós três!... _insistiu.
_Não posso, Vladia, me perdoe, mas não posso...
_Pode pelo menos aceitar meu convite para ficar aqui por uns dias?
_Sim posso, mas não por muito tempo. Tenho de voltar e ajudar nossos irmãos. Também não poderei lhe ajudar com seus... convidados. Ninguém pode saber quem sou, por enquanto.
_Tudo bem. _aceitou Vladia.
Para descontrair, perguntei sorrindo:
_Poderia mandar trazer as crianças? Quando cheguei elas não reconheceram.
Vladia sorriu.
_Gabriella!... _chamou.
_Porém, em sua ignorância, Traian jamais considerou que todos os capitalistas de Kolozsvár, sobretudo os judeus, ficaríam revoltados com essa ignomínia. Por conta disso, passaram a armar nosso exército e até mandar homens para ajudar Nicolae e Marton. Fora isso, nossa casa passou a ser guarnecida, como você pôde constatar ao chegar.
_Sim. _confirmei.
Vladia prosseguiu:
_Agora estou sob a proteção dos banqueiros e comerciantes judeus. Não fossem eles, estaria passando privações pois, de herança, Béla só me legou esta casa, sua propriade no interior e algum dinheiro. O banco ficou para Roland, seu filho mais velho.
_Mas até quando eles lhe darão proteção, Vladia? _inquietei-me.
_Não se preocupe, Irina. Béla me acostumou a tratar muito bem seus amigos e sócios.
_O que quer dizer? _suspeitei.
_Não somos mais crianças, Irina. Não tenho nada a lhe esconder. Quando me casei com Béla ele disse, logo na noite de núpcias, que já tivera uma esposa, que lhe dera filhos e que já estavam adultos. Disse que eu seria sua jóia e sua arma, sua isca preciosa para aumentar sua rede de relações.
_Que canalha! _protestei.
_Isso não vem mais ao caso. _interrompeu-me Vladia. _Nunca amei Béla, nossa acordo era mútuo e por conta dele estou viva e bem, assim como meus filhos. Não fosse este acordo, jamais teria ajudado nossa família, pois ameacei Béla de o abandonar, caso ele não atendesse ao meu pedido. Seria realmente nefasto para ele perder seu maior investimento. Foi graças a mim que ele chegou até Sigismond, afinal quantos nobres você acha que conheço? _Vladia então exaltou-se _Você não sabe o poder que tenho, Irina. Nem Sigismond se arriscaria a tentar entrar nesta casa, sem que sofresse as devidas conseqüências. Tenho todos os judeus na palma de minha mão. Isso porque soube abraçá-los com minhas pernas.
_Não tenho direito de condená-la, Vladia. _tranquilizei-a.
_Então pode ficar aqui comigo, irmã! _convidou. _Mila já está me ajudando. Não há motivos para se envergonhar, somos muito respeitadas.
_Não posso. Não a condeno, nem tenho direito de fazer isso. Amo vocês duas, são minhas irmãs... Mas minha vida tomou outro rumo e... não posso aceitar seu convite.
_Irina, seríamos tão felizes, nós três!... _insistiu.
_Não posso, Vladia, me perdoe, mas não posso...
_Pode pelo menos aceitar meu convite para ficar aqui por uns dias?
_Sim posso, mas não por muito tempo. Tenho de voltar e ajudar nossos irmãos. Também não poderei lhe ajudar com seus... convidados. Ninguém pode saber quem sou, por enquanto.
_Tudo bem. _aceitou Vladia.
Para descontrair, perguntei sorrindo:
_Poderia mandar trazer as crianças? Quando cheguei elas não reconheceram.
Vladia sorriu.
_Gabriella!... _chamou.
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