
Ao voltar para local onde havíamos deixado os cavalos, já encontrei Ion e seus amigos sentados, comendo pedaços de suas vítimas. Três cabeças estavam suspensas, com os cabelos amarrados por cordões, ao cabo de uma espada. Ao me verem, saudaram-me com bruta satisfação:
_Salve, Irina! Venha se regalar conosco! _saudou e convidou Ion, estendendo um braço.
_Grata, Ion, mas já estou satisfeita! _respondi educadamente.
Fui até Aghaton, para ver se ele estava assustado. Mas ele demonstrava tranquilidade.
_Tudo bem, meu menino, hum?... _perguntava acariciando-o.
Vendo-o tranquilo, tomei minha bolsa e dirigi-me ao rio. Lavei o rosto, os braços e as mãos. Como meu vestido estivesse ensopado de sangue, resolvi lavá-lo também. Gritei então para Ion:
_Ion!
_Sim, marquesa! _respondeu ele.
_Irei me banhar. Por favor, não venham para cá, enquanto eu não terminar.
_Será como deseja, marquesa. _respondeu Ion com impressionante humildade, demonstrando que Oanna realmente conseguira transformar aquelas feras em verdadeiros cavalheiros.
Com toda tranquilidade, tirei a capa e o vestido, agachei-me à margem do revolto Bicaz e comecei a me lavar. O sangue, meio congelado, meio coagulado, começou a se dissolver e escorrer por meu corpo, banhando meu umbigo e minha vulva. Com as mãos em cuia, recolhia e derramava a gélida água do rio, que levava o sangue da batalha consigo. Tirei então uma barra de sabão da bolsa e passei sobre o corpo. A espuma escorria como uma carícia. Agachei-me novamente, joguei água sobre o corpo e deixei que a espuma do sabão se juntasse à espuma do rio. Após lavar o corpo, comecei a lavar o vestido. Tinha de tomar cuidado, para que a correnteza não o arrastasse. Uma vez que o sangue já não deixava nele mais que uma mancha clara, torci-o para escorrer a água e terminei o serviço. Cobri-me com a capa e, protegendo ainda a frente com o próprio vestido, fui até meus companheiros. Eles haviam feito uma fogueira, para que eu pudesse secar a roupa. Conversavam tranquilamente entre si. Deitei-me então próxima à fogueira, cobrindo-me com o vestido, como se este fosse um lençol. O fogo me aqueceria e o secaria ao mesmo tempo. Embrulhada pela capa e pelo vestido, pousei a cabeça sobre a bolsa, usando-a como travesseiro e fui visitar o mundo dos mortos.
Lá chegando, passeei entre tünders e manós e dormi à sombra de um carvalho. Fui despertada pela voz da Dama de Azul.
_Irina! Acorde, Irina. _chamou com doçura.
Abri os olhos e ela estava de pé, olhando para mim, com as mãos cruzadas sobre o colo. Fui-me erguendo e protegendo os olhos, pois uma intensa luz saia de trás dela. Ela então começou a falar:
_Não se incomode com a luz que brilha atrás de mim, ela será sua protetora._Protetora? De que? _indaguei como uma criança.
_Você tem mais do que homens para enfrentar, Irina. Você enfrentará um demônio. Um demônio muito poderoso.
_Um demônio? Que tipo de demônio?
_Um vampiro mestre.
_Vampiro mestre? Não compreendo.
_Basta que entenda que ele é muito perverso, que não possui nenhuma piedade. Por isso você precisa desta luz.
_Mas... quem é ele?... _perguntei, ainda protegendo a vista da luz intensa.
_Você o conhece. Se o reconhecer a tempo, poderá matá-lo ainda no ovo.
_Mas... como? Onde está o ovo dele?...
_Veja você mesma. _respondeu ela.
De repente, como num milagre, um deserto terrível, como o de Drácula, se abriu à minha frente. Dentro de uma cratera rasa havia um imenso ovo negro. Eu era capaz de ouvir uma respiração dentro dele. Uma incomensurável opressão tomou meu coração. Antes que pudesse correr de horror, a Dama Azul me chamou:
_Desperte, Irina. Tudo será revelado na hora certa. Desperte!..._Veja você mesma. _respondeu ela.
De repente, como num milagre, um deserto terrível, como o de Drácula, se abriu à minha frente. Dentro de uma cratera rasa havia um imenso ovo negro. Eu era capaz de ouvir uma respiração dentro dele. Uma incomensurável opressão tomou meu coração. Antes que pudesse correr de horror, a Dama Azul me chamou:
Senti uma sonolência, fechei os olhos e despertei. A noite já havia chegado. A neve caía suavemente em flocos.
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