quinta-feira, 24 de novembro de 2011

ESPECIARIA





















Quando o médico despertou de seu transe, tinha apenas uma tigela de água quente e uma toalha perto de si, sobre o criado mudo. Já se encontrava vestido e de mangas arregaçadas. Minhas irmãs, também recém-despertas, apenas esperavam que ele concluísse seu trabalho. Surpreso, um tanto confuso, ele simplesmente molhou a toalha na água e começou a passar em meu rosto, pescoço e braços. Porém, logo que notou que eu estava serena e com a temperatura normalizada, disfarçou seu desconserto e disse:
_Ela está já está melhor... Vejam!...
Minhas irmãs também demonstraram espanto com minha repentina melhora, mas preferiram festejá-la:
_Graças a Deus! _exultaram Vladia e Mila ao mesmo tempo.
Na verdade, todos estavam confusos. Experimentaram um momento de sonho que não compreenderam muito bem. O médico era o mais confuso, pois ainda estava em dúvida se me possuíra, ou tivera um absurdo delírio. Porém, eu já estava melhor, de olhos fechados, como se dormisse, e isso era o que importava para todos.
Quando levantei, Vladia mandou me servirem uma sopa. Meu poder mental deve ter perdurado ainda um pouco mais de tempo, pois a sopa veio sem alho. Porém, veio carregada de paprika. Kolozsvár é pródiga nessas especiarias, sobretudo as trazidas do Novo Mundo. De minha parte, sempre adorei o açúcar. A Bíblia fala da "terra que mana leite e mel", esta terra não me interessa. Os ciganos, os judeus e mercadores em geral, falam da colônia portuguesa a que chamam Brasil, onde é produzido o açucar. Contam maravilhas dela. Esta terra sim, me interessa, a terra que mana açucar.
Especiaria, porém, foi o que me tornei na casa de Vladia. Todos o seus cliêntes passaram a me olhar como se eu fosse a mais saborosa iguaria do mundo. Apelidaram-me de russa, por conta de eu ser ruiva. Os judeus não se cansavam de me jogar galanteios. Porém, meu sucesso acabou por comprometer a segurança de meu segredo. Um velho rabino, Ismael _que Vladia depois me explicou ser de Êfeso _mal me teve diante de seus olhos, começou a tremer dos pés à cabeça e passou a esconjurar-me em turco, lançando-me uma série de imprecações das quais apenas entendi a palavra lilim. Os judeus que o acompanhavam contornaram a situação, desculpando-se e explicando que o rabino já era muito idoso. Mais que depressa o levaram dali, porém saíram me lançando olhares desconfiados. Diante deste incidente, fui categórica com Vladia:
_Acho que já é hora de eu retornar, irmã.
Ao meio dia do dia seguinte, despedi-me de Mila e Vladia e segui com Ivan de volta para Csik. No carroção, para variar, Ivan levava sacos carregados de paprika.

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