
Segui então com minha nova comitiva pela estrada. Felizmente o inverno a deixara bem intransitável, desencorajando os viajantes. Nossa jornada seria tranquila. De hábitos corteses, como era de se esperar, Florin logo iniciou uma conversa para me descontrair.
_Dimitru nos falou que a senhorinha pertence à casa de Somlyó, e que é filha do grande Joszef, que era marquês deste condado.
_Sim, mas ele não deveria estar espalhando esta informação por ai. _respondi, ainda um tanto aborrecida e carrancuda.
_Não se preocupe, marquesa, somos bastante fiéis à Oanna, nossa suserana. Esta informação jamais chegou aos ouvidos dos inimigos de sua casa.
_Assim espero. _respondi secamente.
_Desculpe se a aborreci, marquesa. Permanecerei em silêncio, se assim desejar.
Percebendo estar sendo um tanto intransigente com um criado que poderia de ser inestimável valor, reconsiderei:
_Não, nobre Florin. Perdoe-me o mau humor. Não tenho boas relações com Dimitru. A presença dele foi que me aborreceu. Diga-me, quem o amaldiçoou?
_Nobre senhorinha, fui vítima de minha volúpia. Não resisti aos encantos de uma vampira que habita esta floresta e mais parece um fada. Não entendo o que ela fala, não parece ser ela mesmo deste mundo, mas lhe confesso que até hoje anseio por novos encontros com esta dama.
_Por acaso ela veste uma camisola e tem olhos muito maquiados? _indaguei rindo-me.
_Sim, vejo que a conhece.
_Claro que conheço Calidora! Somos como irmãs.
_Não sabe como me alegra esta informação senhorinha. Nem as damas da França me causaram tanta felicidade como sua amiga.
_Entendo. Mas por que ela lhe amaldiçoou? Calidora não é dada a ter este comportamento.
_Isto não importa. Nunca tive filhos, nem família para deixar desassistidos. Saiba apenas que as horas que antecederam à condenação de minha pobre alma foram as mais felizes de minha vida.
Sem conter-me, comecei a rir da polidez um tanto caricata de Florin. Talvez encorajado por meu riso, Ioan se aproximou. Ao vê-lo, não temi em perguntar:
_E você, Ioan, por que foi amaldiçoado?
_Era contrabandista. Uma noite, fui atacado pela senhorinha e sua amiga, no Lago de Santa Ana! _respondeu sem pejo, porém com um sorriso nos lábios.
_Como assim?! _reagi. _Nunca deixávamos sobreviventes!
Ele então reavivou-me a memória:
Ele então reavivou-me a memória:
_A senhorinha me atacou, mas consegui escapar. Sua amiga foi atrás de mim e tentou me afogar, mas sou forte, desvencilhei-me dela e nadei até à tona. Consegui chegar à beira do lago, mas morri porque perdi muito sangue.
_Vênus!... Eu lembro desta triste noite!...
Ele então tranquilizou-me:
_Não se preocupe, senhorinha! Sempre soube que seria condenado, forniquei com todas as minhas irmãs! _completou soltando uma risada.
Ao sentirem nossa descontração, os dois últimos se aproximaram. Quando indagados sobre o motivo de sua maldição, foram sucintos:
_Eu e Ciprian éramos ladrões. _revelou Mircea _Éramos procurados em nossa terra. Somos da Moldávia. Fugimos para cá e fomos atacados, nesta estrada, por quatro estranhas mulheres.
_As pornae! _constatei imediatamente.
_Não sabemos como se chamam. _continuou Mircea _A única coisa que sei é que fui vítima desses demônios por não ter batismo.
_Não tem família? _investiguei.
_Contam que meu pai era ladrão e minha mãe rameira. Cresci como filho adotivo de uma solteirona que tinha muitos filhos adotados. Ela sobrevivia de fazer feitiços e nunca batizou qualquer um de nós._explicou Mircea.
Antes que eu perguntasse, Ciprian se apressou em contar:
_E eu sou o sétimo filho de meu pai, que também é o sétimo filho de meu avô, entende...
Assenti afirmativamente com a cabeça e fiz uma última pergunta:
_E como conheceram Dimitru?
Desta vez, Florin explicou:
_O bardo me encontrou pouco depois de eu ter despertado para minha nova vida. Ele disse que tinha mais amigos e me apresentou aos companheiros aqui presentes.
Ioan então narrou sua história:
_Quando despertei à beira do lago, corri atrás de sangue. Resolvi atacar um outro contrabandista, a quem já conhecia e não gostava. Chupei seu sangue e depois cravei minha faca em seu coração, para ele não reviver e vir se vingar. Agi assim com vários outros contrabandistas até que, ao matar um, ouvi alguém elogiar minha perícia. Virei-me para ver quem falava e dei de cara com Dimitru. Ele me disse que tinha uma senhora, que precisava de homens como eu.
Foi então a vez de Mircea e Ciprian:
_Quanto a nós _começou Mircea _ao despertarmos, atacamos os primeiros salteadores que encontramos. Também os matamos, como fez Ioan, pelo mesmo motivo. Cortamos suas gargantas. Penamos muito na floresta. Seríamos mortos pelos ciganos, se Dimitru não nos encontrasse a tempo e os iludisse. Ele então nos disse de sua senhora e de como ficaríamos melhor ao seu serviço.
_É... vejo que Dimitru é um anjo. Só não entendo porque este "anjo" me expulsou de sua caverna. _conclui.
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