segunda-feira, 24 de outubro de 2011

CORDA



















No dia seguinte, eu e Mika conversamos mais. Atendendo ao clamor de meu coração, ele me garantiu que frei Emil ainda estava com eles, na floresta. Não contive minha alegria em saber disso, pulei em seu colo, chacoalhei em cima dele, o abracei até quase sufocar, dando-lhe muitos beijos, rindo e chorando ao mesmo tempo. Ele disse que Andrei também estava com eles. Contou então os crimes que conde Vladmir cometera, em sua busca ensandecida por mim:
_Primeiro ele aprisionou tio István e tia Mónika na masmorra de seu próprio castelo e os deixou a pão e água durante quatro dias, para que delatassem onde você estava.
_O que me admira, pois eles o estavam ajudando a chantagear papai com a estória do incesto. _comentei indignada.
_Sim, hoje sabemos disso. Mas só depois que ele queimou o solar de tio István, com ele, tia Mónika e todos os criados dentro, é que soubemos do acerto.
_Eis o prêmio da traição. _postulei.
Mika continuou:
_Depois disso ele mandou uma tropa até o mosteiro onde Mila se encontrava. Os soldados mataram as freiras e incendiaram o prédio.
_O que?!... _inquietei-me. _E Mila?!...
_Graças a Deus Mila conseguiu fugir, não me pergunte como, e agora está com Vladia em Kolozsvár.
_E vocês, como estão? _indaguei preocupada, ajeitando-lhe uma mecha de cabelo sobre a orelha direita.
_As coisas estão difíceis. _respondeu ele. _Só não caímos por conta de nossa obstinação. Já se debate uma trégua, para uma possível negociação com Sigismond. Mas uma parte de nossos companheiros é contra, pois teme as inevitáveis retaliações. Tanto Sigismond, quanto nosso povo têm motivos muito fortes para não ceder, para lutar até a morte. Ele nos afrontou, nós o afrontamos. Acho a idéia de uma trégua, e subsequente negociação, um sonho impossível na atual conjuntura!
_Até que ponto estão em desvantagem? _investiguei.
_Até o ponto de o inimigo estar dentro de nossa casa. Somlyó passou a ser o centro do conflito, o centro da resistência. Se Sigismond conseguir destruir nosso foco na floresta, nosso país estará em suas mãos.
_Não possuem nenhuma alternativa? _inquietei-me.
_A última alternativa que considerávamos foi um fracasso. Chegamos à conclusão de que precisávamos de um posto fortificado. Por isso tivemos a ideia de retomar nosso castelo. Tínhamos um bom contingente, mas nosso assalto foi um desastre. Conseguimos entrar com facilidade, mas uma explosão acidental complicou tudo. Alguns de nossos homens entraram pela cozinha. Lá, encontraram guardas, com quem trocaram tiros. Do ponto em que estava, ouvi quando o tiroteio começou. Acontece que, ao que parece, eles estavam guardando barris pólvora ali. Devem ter atingido um barril, pois toda a cozinha voou pelos ares. Pelo menos dez de nossos homens foram perdidos. Os que estavam lá fora, cerca de quinze, também foram gravemente feridos. Um incêndio teve início. A luta começou então desordenada, praticamente homem a homem. A ajuda dos camponeses foi um tanto nefasta nesse sentido. Eles caiam sobre os soldados com suas foices, facas e enxadas, sem medo de morrer. Nossos inimigos passaram a atirar a esmo, isso tirou a vida de muitos de nossos melhores homens. O fogo estava se espalhando e tivemos de bater em retirada. Foi difícil para mim e Nicolae encontrarmos uma saída, pois fomos acuados no alto da escada. Batemos muitos homens à espada, mas tivemos de nos refugiar no antigo quarto de Mila. Descemos pela janela, com a ajuda dos camponeses, que puseram cavalos a postos para nós, embaixo. Na hora da fuga, no entanto, fomos surpreendidos por mais soldados. Na confusão da luta, acabei por fugir para um rumo diferente do de Nicolae.
Pus a mão sobre a boca de aflição. Mika prossegiu:
_Nicolae voltou para nosso acampamento, eu tomei o rumo sul. Ainda cheguei a me esconder na casa de um ferreiro. Ele me disfarçou com um manto com capuz e pregou as ferraduras de meu cavalo ao contrário, para que os soldados do príncipe pensassem que fugi na direção oposta. Esperava chegar em Brasov são e salvo, mas alguém deve ter me visto. Uma pequena tropa veio em meu encalço. Quando o capitão viu que não podia mais perder tempo comigo, mandou três homens continuarem em meu rastro. Conseguiram me alcançar na estrada, onde fui obrigado a confrontá-los. Matei um deles com um tiro na testa. Os outros me perseguiram até onde você me encontrou. Na fuga, levei o tiro que me atravessou o abdomem. Eles também feriram a perna traseira direita de meu cavalo. Tive de saltar e sacriquificá-lo. Escondido atrás de um pinheiro, despedi-me dele e o esfaqueei na garganta. Um tiro seria mais rápido, mas delataria meu esconderijo. Fugi então para frente, sem saber onde iria chegar. Meu intento era achar uma gruta. Mas estava perdendo sangue e comecei a me sentir fraco e sedento. Foi quando finalmente os dois me alcançaram... Para minha sorte, não tinham mais balas. Ainda tentei lutar, mas um deles, com um único golpe de espada, jogou a minha longe. Cai ao pé de um pinheiro, não tinha mais forças para me manter de pé. Teria sido morto... se o milagre mais aterrorizante de toda a minha vida não acontecesse!...
Neste momento não resisti e o abracei soluçando:
_Jamais deixaria você morrer, jamais!...
_Eu sei... Eu sei... _respondeu Mika afagando-me os cabelos.
Expliquei então a ele o que se passou comigo:
_Tive uma visão de sua fuga, consegui chegar a tempo!... _e continuei a chorar.
Mika me afagou a cabeça e prosseguiu:
_Eu não entendo como consegue fazer isso, mas lembro que ainda a segui. Não me pergunte de onde tirei forças para isso. Eu parecia estar possuído.
Lhe expliquei então:
_Você seguiu o rastro deixado por minha força, ele tomou sua alma, puxou-o como uma corda em seu pescoço.
_Não entendo de magia, mas de minha parte jamais maldirei esta corda. _disse enquanto eu o apertava em meus braços e o beijava.

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