quinta-feira, 6 de outubro de 2011

LOBA



























Os dias que se seguiram foram de total lua de mel entre eu e Aghaton. Não cansava de cavalgá-lo, tratá-lo, dar-lhe carinho, água e comida. Oanna não conseguia controlar seu ciúme.
_Por acaso você se casou com este cavalo?
_Sim! _respondia categórica.
O rosto dela fechou-se irado e, só para se vingar, argumentou:
_Você o encontrou ferido, ele fugiu, certamente. Pelo visto, os inimigos de seu pai se apoderaram dele em algum momento. O que significa que seu pai pode estar em perigo... ou morto!...
_Não!... _desesperei-me.
Imersa em seu corrosivo ciúme, ela simplesmente se afastou. Eu porém, não encontrei mais paz o restante do dia. À noite, pressentia que algo muito ruim estava para acontecer. Foi neste momento que recebi um claro chamado. Estava na sacada de meu quarto, olhando para a floresta, quando uma imagem surgiu em minha mente: Mihail, molhado pela chuva, acuado, ferido, fugindo... prestes a ser alcançado por dois soldados! Saltei da cadeira.
_Nããããoooo!!!... _gritei.
Olhei desesperada para a floresta e para as montanhas longinquas. Não podia chegar até ele em minha forma mortal. Não pensei duas vezes... expirei e sai de meu corpo. Como facho de luz, rasguei os céus. Num piscar olhos, pus os pés bem próximo ao lugar onde se encontrava Mihail, já sob a forma de uma imensa loba branca. Surgindo por detrás das árvores, saltei direto no pescoço do soldado que já erguia a espada para matá-lo. Sem forças, Mihail se limitava a erguer o antebraço direito inutilmente, em um último reflexo defensivo. Rosnando e babando de fúria, com uma ferocidade fora de controle, afundei meus dentes na carne, entre o pescoço e o ombro esquerdo do soldado. Seu grito foi esganiçado:
_Aaaaaaaaaaahhh!!!...
O balancei então, de um lado para o outro, como se ele fosse uma reles boneca. Ele urrava de dor, sentindo sua carne se rasgar. Seu sangue salpicava nas árvores e na neve.
_Aaaaaaaaaaahhhh!!!... Aaaaaaaaaaaaahhh!!!...
O outro soldado apenas conseguia gritar de horror.
_Aaaaaahhhh!!!
Atirei então o corpo de minha primeira vítima na direção de um pinheiro. Sua coluna e suas costelas soaram alto, quando se espedaçaram ao bater contra o tronco _Krah! _Tomado pelo terror, o outro simplesmente largou a espada, deu as costas e tentou correr. Mas logo sentiu meus dentes cravarem em seu pescoço. Ainda vivo, agonizando, sendo lentamente sufocado por minhas mandíbulas, ele ainda teve o horror de não sentir mais o chão sob seus pés, pois eu o erguia suspenso em minha boca. O sangue escorria grosso pelo canto de sua boca e, sem que ele esperasse... _crah! _o atirei para longe, quebrando seu pescoço.
Paralisado de terror, Mihail, apenas assistia a tudo, encolhido em seu canto. Ao mirar seus olhos... não resisti. Pouco a pouco fui voltando à forma humana. Soluçando, com os olhos cheios de lágrimas e os lábios e a camisola banhados de sangue, mostrei-me a ele em minha forma espectral.
_Irina!... _pasmou ele.
Sem conseguir suportar a descoberta de minha condição, tomei a forma de serpente de fumaça e adentrei na floresta, fugindo de volta ao castelo. Ainda ouvi sua voz gritar por mim:
_Irina!... Irina! Não!... Volte, Irina!... Irina!...
Meu coração apertava e eu chorava, chorava muito. Ainda que minhas lágrimas fossem vapor.

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