sábado, 8 de outubro de 2011

PIETÀ


Pietà - Rubens.



Ao retornar a meu corpo, cai sobre o chão e chorei descontroladamente. Minha camisola estava suja de sangue, assim como lábios. Um vampiro não se livra da marca de seu crime, mesmo se o faz longe de seu corpo. O sangue se plasma onde ele estiver. Ainda debruçada sobre o chão, pude ouvir Oanna abrindo a porta e entrando.
_Agora que já fez o que o que fez... vai ficar ai chorando feito uma menina tola? _repreendeu.
Simplesmente continuei soluçando. Ela continuou:
_Penso que seu irmão precisará de um esconderijo. Pode trazê-lo para cá, não o procurarão aqui. Não adianta mais chorar de vergonha, ele já sabe. Penso que, neste momento, o fato de você ser uma vampira o preocupa menos do que ser encontrado por seus inimigos. Vamos, levante-se! Vou lhe dar um banho e partiremos com Theodor e Victor, imediatamente.
Embora estivesse com vontade de matar Oanna, obedeci. Ela tinha razão, não podíamos perder tempo. Não demorou para que adentrássemos a floresta a todo galope, rumo ao local onde encontrei Mihail. Com nossos sentidos aguçados, o alcançamos rapidamente. Mesmo porque ele tentou me seguir, se pondo a meio caminho do castelo. Vimos sua silhueta cambaleante a muitos pés de distância antes que ele pudesse nos ver. Como estivesse com febre, seu calor emanava até nós. Quando finalmente paramos, saltei de Agathon para socorrê-lo, pois já estava sem forças, caído ao pé de um carvalho.
_Mihail!... Mihail!... _desesperei-me.
Febril, de olhos fechados, ele só tinha forças para balbuciar meu nome:
_Irina... Irina...
O abracei com força e acariciei seu rosto. O cheiro de sangue era forte sobre ele. Seu intenso calor me queimava o coração. Olhei-o então de alto a baixo, com os olhos marejados e senti-me como Maria vendo o Cristo morto, tirado da cruz. Não queria largá-lo, mas logo senti as frias mãos de Theodor e Victor me tocarem os ombros e os braços.
_Marquesa, temos de levá-lo. _disse a voz seca de Theodor.
Oanna nos apressava:
_Depressa, não podemos perder tempo! Ele pode morrer!
Larguei Mihail e Victor o ergueu e carregou nas costas. O pôs então sobre seu cavalo, montando logo em seguida, segurando-o com firmeza. Sem mais demora fomos para o castelo. Tão logo chegamos, Oanna mandou Dorotheea esquentar água e preparar um banho. Tiramos a roupa de Mihail _que estava desacordado _e pude descobrir o pior: além do corte de espada no braço, a bala o perfurara pouco mais de um palmo abaixo da omoplata esquerda, até varar pela barriga. Por pouco não atingiu o fígado, ou o rim, porém, rasgou-lhe o intestino. Mas que depressa o lavamos e o pusemos sobre uma mesa, para que Oanna tratasse seus ferimentos. Apressada, ela ordenou:
_Simona, vá buscar dois grandes potes com ervas em meu laboratório! Mais um pequeno frasco que contém uma resina verde! _ordenou estendendo-lhe uma chave específica de seu molho.
Simona correu e logo retornou trazendo o que Oanna pedira. Esta não tardou a pôr sua medicina em prática. Mandou Simona macerar algumas folhas, enquanto derramava pequenas doses da resina verde escura, viscosa, numa panelinha com água fervendo. Jogou então mais algumas pitadas de um pó castanho escuro na fervura. Mexeu com a colher de pau e em seguida ordenou à Simona:
_Ponha as ervas maceradas sobre os ferimentos dele. No furo da bala, ponha um pouco da massa dentro das aberturas.
Simona obedeceu prontamente. Poucos minutos depois, Oanna tirou a panelinha do fogo e ordenou à Dorotheea:
_Esfrie!
Dorotheea derramou a infusão em uma grande caneca de ferro. Pegou então outra caneca e começou a esfriar o remédio, passando-o de uma caneca para outra. Logo a infusão esfriou e Oanna pediu para eu fizesse Mihail beber, com cuidado. Abracei sua cabeça, erguendo-a um pouco, e fui pondo o remédio em sua boca, pouco a pouco, fazendo-o engolir. Para minha felicidade, ele ainda estava um pouco consciente e bebeu a infusão sem problemas. Quando acabou, deitou a cabeça sobre o travesseiro e dormiu.
Com cuidado, Theodor e Victor o levaram até a cama. Fiquei de vigília a noite toda, vertendo lágrimas e pedindo à Perséfone que ainda não cortasse o fio da vida de meu irmão. Quando a manhã vinha raiando, Oanna mandou Sanziana ficar em meu lugar, dando-me ordem para ir dormir. Foi difícil deixar Mihail, mas fui me deitar. Em minha viagem pelo mundo dos mortos, felizmente só encontrei os espíritos de sempre, certificando-me de que meu irmão ainda estava vivo.

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