
Após a ceia, Oanna levou-me para o quarto. Deitou-me na cama, como se eu fosse uma criança e em seguida falou-me olhando nos olhos, em tom baixo e maternal:
_Agora descanse, minha princesa, você terá muito a aprender quando a noite chegar...
Dito isso, pegou meu rosto com as mãos e me beijou a boca. Não prestei nenhuma resistência, aceitando seu beijo. Após beijar-me a boca, deu-me um beijo no olho direito e deixou o quarto, fechando a porta sem bater.
Não adormeci de imediato, meu coração estava confuso. Por um lado, considerava Oanna uma tirana, que me arrancara da paz bucólica da vida ao lado de Calidora, para me dar um novo cárcere de luxo, tal como acontecera quando estive no solar de tio István. Por outro, não apenas sabia que ela estava absolutamente certa quanto à minha arriscada situação, como não conseguia desgostar de todo dela. Tal sentimento eu não conseguia compreender. Como poderia gostar desta dama esnobe, que impunha seu galanteio mediante à minha frágil condição?...
Antes que pudesse encontrar uma resposta, o cansaço fechou-me os olhos e eu espirei. Quando despertei, encontrei-me em uma floresta de árvores ressecadas, escura e tenebrosa. Olhei para o céu, as nuvens estavam prenhes de tempestade. O ambiênte, apesar de desolado, pareceu-me estranhamente familiar. Foi quando, em um ponto elevado, pude reconhecer... o castelo!... O castelo de Oanna, onde agora eu me encontrava. No entanto, ele não me parecia belo, suas paredes estavam sujas e de suas janelas eu podia ouvir gritos desesperados. Um desespero tomou conta de mim e tive o impulso de subir até ele e descobrir o que de errado se passava entre suas grossas paredes. Foi quando a voz lamentosa de um homem me deteve:
_Não vá!... Não vá, Irina, não vá!... _clamava em romeno, atrás de mim.
Voltei-me para trás e fiquei estarrecida!... O homem pendia, esquálido, de um longo e pontiagudo tronco de árvore podado. Ele estava empalado nele!... Seu sangue escorria grosso da haste até o pedregoso chão. De entre seu pescoço e o ombro, a ponta tortuosa de madeira se erguia ensanguentada. Enchi-me de horror e gritei.
_Aaaaaaaaaaahhhh!!!...
Tapei os olhos com as mãos, permanecendo assim por um tempo. Porém, quando as tirei, meu horror foi ainda maior... Havia mais, muito mais pessoas empaladas, muitas e muitas delas, homens, mulheres, crianças, velhos, todos gemendo e gritando ao meu redor. Era como se toda floresta tivesse se tornado um imenso campo de martírio. E em sua agonia eles repetiam, como um estrondo:
_Não, Irina!... Não vá! Não entre no castelo, Irina!... Não vá!...
Dei as costas a eles, tapando os ouvidos, abaixando a cabeça, tentando escapar ao horror. Porém, meus olhos divisaram uma imensa sombra, que crescia tenebrosa no chão. Ergui o olhar para ver quem, ou o que a projetava. Foi quando vi um homem alto, forte, de nariz adunco, longos cabelos e bigodes escuros. Seu olhar irado e malévolo demonstrava que ele estava possesso de ódio. Este hediondo homem se trajava como um voivoda, com uma longa túnica vermelha, adornada de peles negras sobre os ombros. Suas elegantes botas estavam sujas de lama e sangue. Ele trazia uma longa espada ensanguentada na mão direita e a ergueu lentamente, apontando-a para mim. Com uma voz meio rouca e sibilante, falou por entre os dentes em um magiar com forte sotaque saxão:
_Como ousa vir aqui, Irina de Somlyó!...
Olhei para ele sem entender e respondi:
_Mas eu... eu não vim aqui porque quis...
_Sua cadela amaldiçoada! Não pise no meu solo sagrado! Não suje o sangue do dragão! _vociferou.
_Mas eu... eu não entendo... Eu não fiz nada... Não vim aqui porque quis... _defendi-me, já desesperada.
_Ela não fez nada, Drácula! _interveio uma familiar voz feminina.
Voltei-me na direção da voz e constatei: era Oanna. Vendo a surpresa em meus olhos, ela aproximou-se, pousou a mão em meu ombro e meneou a cabeça como quem diz "_Agora está comigo". Em seguida, prosseguiu:
_Ela está aqui porque eu a trouxe, é minha convidada.
_Cale sua boca, sua meretriz! _vociferou, o terrível voivoda. _Abandone já meu alojamento, tire sua presença lasciva daqui!
_Este castelo pertenceu a meu avô, você o roubou! E o transformou em um reles fortim, para amontoar suas armas!
_Este castelo pertence à Ordem do Dragão! _vociferou Drácula.
_Os Danesti pertencem à Ordem Teutônica, da qual sua ordem não passa de uma reles imitação! _bradou Oanna.
_Sua prostituta! Vou matá-la!... _bradou o voivoda, erguendo ameaçadoramente sua espada.
Meu coração encheu-se de terror, mas Oanna ergueu a mão direita e, fechando-a como se pegasse em algo no ar, fez toda aquela pavorosa realidade se dissolver. Sem que eu acreditasse, estava de volta no quarto, sentada ofegante sobre a cama e Oanna estava ao meu lado. Descontrolada, comecei a chorar. Oanna pôs minha cabeça em seu ombro e me abraçou.
_Calma, minha menina, calma... Já passou, já passou... _me acalentava.
O sol já estava se pondo e tão logo me acalmei, Oanna me levou para o banho. Desta vez Dorotheea não se aproveitou de mim, me banhando como à uma criança. Parecia se sensibilizar com meu estado. Depois que Sanziana e Catalina me vestirem e arrumarem o cabelo, desci com Oanna para tomar o desjejum. Enquanto me servia a sopa, ela me explicou o que se passara.
_Eu devia tê-la avisado. Foi culpa minha, esqueci que fatalmente o encontraria aqui.
_Mas quem é ele? _indaguei, ainda assustada.
_Ele é considerado o grande herói da guerra contra os turcos, mas para mim não passa de um pérfido ladrão e assassino.
_O que?... Está dizendo que aquele homem horrível é... o príncipe Vlad?... Vlad Basarab!...
_Sim, o próprio! Penando por aqui, ainda remoendo sua derrota.
_Mas... por que ele me acusou? Eu nunca lhe fiz nada, nem sequer o conheci...
_Ele tem este lugar como seu feudo. Sua alma está presa aqui, assombrando toda esta comuna, e por isso hostiliza a todos que aqui chegam. Sendo morto, ele sabe quem você é, a que família pertence e que é vampira. Ele tem a si próprio como um anjo, protegendo seu solo sagrado.
_Anjo?!...
_Sim, anjo! Um anjo celeste, sagrado, cristão!... _concluiu Oanna, levando a colher à boca.
_Anjo?!...
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