
Cate Blanchett como Elizabeth
Devo confessar que o período que vivi com Calidora foi talvez o mais feliz, desde que a maldição requereu minha alma. Porém, a mudança é a única ordem imutável, me disse o sábio János, na tarde em que passara comigo e Dimitru. Numa noite em que esperávamos os salteadores chegarem, estava com Eni e Dácio, à beira da estrada, enquanto Calidora procurava um bom lugar para nos escondermos. Era cedo e eu podia ficar tranquilamente com as crianças ali, vendo os coches dos viajantes passarem. Era engraçado vê-los se benzendo, tão logo nos avistavam. Dácio e eu contávamos quantos faziam isso.
Foi durante este recreio que vimos surgir das brumas uma esplêndida carruagem, digna e um grande nobre. Notei algo de estranho em seu andor, ela estava sob alguma força estranha, seus cavalos estavam encantados. Ela então aproximou-se da margem e parou, bem diante de nós. O cocheiro, um jovem alto, aparentando 25 anos, que vinha bem vestido, armado com uma espada e que senti de imediato ser vampiro, saltou com rapidez e abriu, um tanto solene, a porta do veículo para que seu ilustre ocupante saltasse. Vi sair de lá uma mulher já madura, aparentando mais de 40 anos. Trajava-se como uma nobre de alta estirpe, com rufos sobre o pescoço e um vestido carmesim, belissimamente bordado. Era, muito pálida, quase fantasmagórica. Seus olhos eram de um azul misterioso, como águas profundas. Trazia as sobrancelhas raspadas, o que reforçava sua imagem bizarra. Ela se aproximou de nós, sem nenhum temor e, dirigindo-se diretamente a mim, saudou-me em magiar, porém com um leve _mas presente _sotaque romeno:
_Boa noite, minha criança.
Não respondi, apenas a fitei com o semblante fechado. Ela então se apresentou.
_Sou Oanna Danesti, e estou aqui para lhe convidar a seguir viagem comigo.
_Ir com você?... _respondi quase balbuciando, ante ao inesperado convite.
_Sim, minha menina. E penso que já estamos nos demorando. Venha!... _chamou estendendo a mão.
_Por que deveria? _retruquei já rilhando os dentes.
Ela então resolveu explicar sua atitude tão aparentemente descabida.
_Em primeiro lugar, minha flor, não quero ferir seus sentimentos para com estas duas coisinhas graciosas (os filhos de Calidora) mas... penso que já passou da hora de você ficar brincando de babá. Este ofício não cai nem um pouco bem para uma marquesa.
Meu queixo caiu de surpresa neste momento. Mal consegui esboçar uma resposta. Ela continuou:
_Venha! _disse-me estendendo a mão. _Você deve vir comigo. Não tema, não delatarei você. Sou tão amaldiçoada quanto você e, por isso, não tenho o menor interesse em ver cavaleiros batendo à porta de meu castelo.
_Quem é você? O que quer? Como sabe quem sou?_reagi.
_Como lhe disse, me chamo Oanna Danesti. _respondeu com orgulho e altivez, em seguida prosseguiu _Não me admira que nunca tenha ouvido falar de mim, pois há muito tempo não venho por esta região. Não resido aqui, mas não demorou muito para que meus informantes me contassem sobre uma nova e poderosa vampira. Uma vampira mais feroz que o pior os lobos, o fantasma, ou demônio branco, que ataca impiedosamente os contrabandistas. Também me contaram que a vampira grega havia arranjado uma companheira... tão linda e voluptuosa, que todos os ciganos das redondezas acorrem até aqui para possuí-la.
_Quem lhe contou tudo isso? _ergui-me já enfurecida.
_Pouco importa, jovem marquesa. _respondeu com tom esnobe _Basta dizer que você deve vir comigo agora, imediatamente!...
_Jamais irei com você! _temei.
_Quanta teimosia! _queixou-se em seu tom afetado. _Sabe, marquesa, acha que ainda não se deu conta do preço de sua fama. Uma fera surge aterrorizando os bandoleiros, uma fada aparece avassalando os ciganos e... tudo isso depois que a filha caçula do marquês de Csik... desaparece!... Oh, e como os ciganos clamam por seu nome aos quatro ventos, Irina, Irina, Irina!... Acha realmente que, com tanta fama, os inimigos de seu pai tão logo não a encontrarão? E vejam só, encontrarão uma vampira! A prova do crime do pobre marquês! O que será que acontecerá com ele?...
Este último argumento calou-me. Como fui tola em não me dar conta disso? Meu nome já devia estar ressoando para além dos Cárpatos. Sentei-me, praticamente desabando sobre as nádegas, com as mãos na cabeça e a mente atormentada por mil pensamentos. E se conde Vladmir, ou Traian já soubessem onde eu estava? E se papai fosse enforcado? E se matassem Calidora e seus filhos ao me capturarem?...
_Venha! _voltou a convidar Oanna, estendendo a mão.
Desesperada, sem alternativa, segurei a mão da nobre estranha e a deixei me conduzir até a porta da carruagem. Antes de subir, porém, voltei-me e olhei para as crianças, por um momento.
_Não nos deixe, Irina! _suplicou Dácio, em koiné.
Eni começou a chorar e meu coração se partiu. Larguei a mão de Oanna por um instante e corri para os abraçar. Os beijei com lágrimas nos olhos e, em seguida, disse a Dácio:
_Vá com Eni até sua mãe e a informe do que aconteceu. Vá, querido, depressa! Vá!...
Os deixei então e entrei na carruagem. Dácio me obedeceu, mas foi dilacerante vê-lo correr com Eni, ainda olhando para mim, com os olhos cheios de lágrimas. Eni gritava seu choro, como é próprio das crianças pequenas. A carruagem começou sua viagem. Porém, antes que eu pudesse enxugar as lágrimas, ainda pude ver Calidora, indo rumo aos filhos. Seu rosto era de surpresa e preocupação. Instintivamente ela olhou para a carruagem e me viu. Parou me olhando, com uma triste surpresa nos olhos. Dácio alcançou sua mãe e a abraçou, assim como Eni. Calidora abaixou-se e pegou Eni nos braços. Em seguida pegou a mão de Dácio. Voltou então a olhar para trás, para mim. De seus olhos, sempre tão sedutores, escorriam lágrimas. Sua maquiagem borrava.
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