quarta-feira, 1 de junho de 2011

LÂMIAS




















Lâmia, The Serpent Woman, de Anna Lea Merritt


Viver ao lado de Calidora era ser uma tünder. Vivíamos a passear pela floresta, com nossas himations vaporosas, nossos penteados exóticos, nossas sandálias, colhendo flores e frutos. Eu a ajudava nos afazeres domésticos, sobretudo como babá de seus filhos. Isso compensava a falta que sentia de meus sobrinhos. Adorava mimar Eni. Quando o sol se punha, Calidora gostava de cantar, tocando sua lira. Dácio a acompanhava, tocando uma flauta de , que eles chamavam de Syrinx. As canções eram muito antigas, seu rítimo era estranho e a melodia instigante. Nos induziam a dançar de forma embriagada, como se estivéssemos possuídas por Dionísio. De fato, Calidora só tocava bebendo vinho. Eu não aguentava lhe acompanhar, ficava tonta e parava. Ela ria, pois estava acostumada a tocar, cantar e beber uma noite inteira, até o amanhecer. Sinceramente, jamais vi Calidora embriagada.
Por volta da meia noite, saíamos para o Lago de Santa Ana, para caçar contrabandistas romenos. Eles costumavam guardar sua carga nas imediações do lago, por conta de sua localização mais elevada. Calidora agia exatamente como contavam as estórias que ouvi na infância. Ela entrava nua no lago e se escondia sob suas águas azuis. A fina bruma que pairava sobre as águas ajudava a escondê-la ainda mais. Não demorava muito, um romeno incauto aparecia com sua canoa repleta mercadorias roubadas. Tão logo o divisava, Calidora começava a cantar. Sua voz era bonita e bem entoada.
Como uma besta movida por seus instintos mais elementares, o romeno era facilmente encantado. Não demorava, ele começava a remar em sua direção. Ela então flutuava de peito para cima, mostrando seu corpo sedutoramente, coberto apenas por uma fina camada de água. Embora não fosse alta, Calidora tinha um corpo esbelto e bem feito. Seu sorriso era lindo e muito sedutor. Quando a vítima chegava bem perto, ela abria seus braços e chamava. O alucinado contrabandista caía n'água para tê-la. Ao recebê-lo, o enlaçava com os braços, beijava e o levava para o fundo. Era lá que sugava seu sangue e o matava afogado.
Era comum virem mais de um. Dois era a quantidade perfeita, um para cada uma. Quando vinham três, deixávamos o terceiro fugir. Isto não era anti-estratégico, pois era importante que criássemos um mito aterrorizador, isso nos protegia. Nos fazia parecer fantasmas, demônios indestrutíveis. Um fugitivo sempre contaria sua pavorosa aventura para outras pessoas, e estas tremeriam dos pés à cabeça ao escutá-lo. Por outro lado, não afugentávamos de todo os contrabandistas, pois sempre existirão os incrédulos, os audaciosos e aqueles que se aventuram em nome da ganância.
No início, eu apenas esperava escondida a hora de atacar os contrabandistas. Depois, tomei coragem de ficar nua, para seduzi-los. Embora eu não soubesse cantar, conseguia muitas vítimas graças ao meu corpo. Não os chamava, apenas ficava ali, próxima à Calidora, olhando para eles e nadando displicentemente. Como não percebessem nossas presas, que se ressaltavam apenas à hora do ataque, jamais se davam conta de que nadavam rumo à morte.
Consumíamos apenas uma pequena parte da mercadoria que levavam. A maior parte Calidora negociava com os ciganos. Nós os esperávamos sempre nas luas cheias, numa encruzilhada na floresta. Eles chegavam calmamente à cavalo. No início, apenas Calidora os esperava, eu permanecia escondida atrás de uma árvore. Ela os recebia carinhosamente, com beijos e carícias. Deixava então que analisassem a mercadoria. Sempre ela era de seu gosto. Em troca, eles davam à ela perfumes, queijos, linguiças, potes com doces, tecidos lindos e outros mimos de terras distantes. Também sempre traziam um ou dois odres com leite de cabra.
Porém, a permuta não acabava ai... Já na primeira noite, vi Calidora se entregar a dois ciganos. Ela se pôs de quatro e deixou que um deles a montasse por trás, enquanto felava o outro. Este último gemia e fazia qualquer promessa de amor lá em sua língua, enquanto lhe acariciava os negros e sedosos cabelos. Uma vez satisfeitos, despediram-se dela, montaram em seus cavalos e foram embora, levando a mercadoria.

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