domingo, 12 de junho de 2011

LILITH






















Além do lago, também tínhamos o costume de atacar na estrada. Não era sempre, para não atrair muito os lobos. Nossas presas eram os salteadores. Era fácil reconhecê-los, eram homens rudes, que sempre vinham à cavalo, levando mosquetes às costas e escondendo o rosto sob lenços. Seus alvos eram as carruagens com nobres e os comboios de mercadores. Por conta disso, esperavam escondidos à beira da estrada. Era justamente neste momento que os atacávamos. Íamos por trás, silenciosas como cobras traiçoeiras. A tática de Calidora era a mesma que eu usava na trilha do Cheile, pular sobre a vítima, tapar sua boca e cravar as presas violentamente em seu pescoço.
Como os salteadores contavam sempre entre três, ou quatro, levávamos as crianças. Primeiro pegávamos a "janta" delas, para se entreterem e não nos atrapalharem, no momento em que fôssemos pegar os outros. Apenas uma pegava a "janta", a outra ficava como babá, mantendo-os quietos.
_Olha mãe, bandidos! Bandidos ali, mãe! _se excitava Dácio como quem via um doce.
Seus olhos ficavam mais vidrados que nunca e suas pequenas presas se mostravam terrivelmente. Calidora o controlava:
_Shhhh!!!... Silêncio, filho! Logo a mamãe vai trazer um para você.
Eni choramingava tola, como é próprio das crianças da sua idade:
_Mããã-iiiiimm... Quero sangue! Mããã-iiiimmm... sangue!
Jamais levávamos as crianças para o lago. Primeiro porque eles quereriam brincar e fariam muito barulho. Segundo porque poderiam receber um tiro, ou afogar-se. Na verdade, na maior parte do tempo, Calidora as alimentava com sangue de animais e carne crua, como eu fazia antes. Quando tinha leite de cabra, dava quase todo a eles.
Calidora foi minha primeira mestra no vampirismo, com ela aprendi muito sobre minha nova natureza. Quando lhe contei o episódio dos caçadores, ela esclareceu:
_Quando você criou aquela ilusão, eles realmente viram algum animal correndo.
Quando lhe contei sobre meu encontro com o pastor, no mundo dos mortos, ela explicou:
_Quando ele lhe disse que um lobo o atacou, ele estava sendo sincero. Foi realmente o que ele viveu. Você criou esta ilusão, mas até então não sabia que tinha essa capacidade.
_E ele tornou-se vampiro? Não o vi novamente. _indaguei.
_Seus amigos, com certeza, decapitaram e queimaram seu corpo _concluiu ela.
Ela enumerou-me nossas outras fraquezas, além do alho, que já conhecia:
_Jamais podemos adentrar qualquer habitação sem sermos convidados, pois os lares da casa nos atacarão.
_Lares?!... _indaguei sem compreender.
_Os espíritos protetores da casa, da família. Vocês cristãos chamam de anjos da guarda.
_Humm... _gemi compreendendo finalmente.
Ela continuou:
_Uma simples rosa silvestre pode nos manter presas no Hades, deixando nossos corpos à mercê de nossos inimigos. Isso se dá porque rosas nos dão paz, então simplesmente nos esquecemos de retornar. Também tememos a luz solar, pois nos tornamos seres das trevas. Somos agora muito parecidas com as baratas e os morcegos, que procuram apenas a escuridão.
_Mas que mal pode nos fazer a luz do sol?... Já fiquei sob ela várias vezes após me tornar o que sou hoje. Notei que não a suporto, irresistivelmente, antes do meio dia.  Porém, nada mais acontece, além de eu ficar com a pele um tanto ruborizada, com os olhos incomodados, às vezes seco por sua claridade e me encolhendo como uma criança que teme apanhar da mãe.
Calidora respondeu-me prontamente, antes que terminasse:
_As trevas tomaram nossas almas, Irina, elas não nos querem na luz. Mas você já deve ter notado que, mesmo a pino no céu, o sol passa a nos incomodar, cada vez menos, após o meio dia.
_Sim! Era o que ia lhe dizer também! _animei-me.
_Após o meio dia _continuou Calidora _começa o lento caminhar do mundo para as horas trevosas. É quando finalmente podemos caminhar calmamente por onde bem quisermos. Porém, lhe digo que há strigois que literalmente esturricam à luz do sol, não importa a que hora do dia, como se estivessem sendo assados em uma grande fogueira.
_Por que?
_Porque sua natureza já está muito próxima da dos piores fantasmas.
Continuei sem entender direito e ela prosseguiu:
_Lembre, jamais devemos atacar pessoas de fé poderosa. Quando se diz que os vampiros temem a cruz cristã, esta é uma ideia falsa. Se assim o fosse, não haveria vampiros nos cemitérios. O que realmente nos atinge é a fé, seja cristã, ou não.
_Isto sim, compreendi! _respondi-lhe.
Uma tarde, Calidora me ensinou a ilusão do reflexo. Pediu-me para que sentasse em frente ao espelho, penteando-me tranquilamente. Fiz isso e, durante um breve tempo, não vi o reflexo de ninguém surgindo atrás de mim. Porém, para minha total surpresa, uma madeixa de meus cabelos ergueu-se sozinha e começou a formar uma trança.
_Aaaaaaaahhh!!!... _gritei.
Voltei-me para trás e encontrei Calidora torcendo-se em sua louca gargalhada.
_Ahahahahahahahahah!...
Ela então me explicou que podíamos fazer as pessoas simplesmente não enxergarem nossos reflexos, fosse no espelho, fosse na água. Era só uma questão de nos concentrarmos e desejarmos com afinco, assim como eu fazia, ao encantar os animais. Explicou-me também que quando seduzíamos as vítimas, elas simplesmente ficavam tomadas por nossa sensualidade e se tornavam presas fáceis. Segundo Calidora, isso se dava porque Circe, filha de Hécate _senhora dos seres sombrios, como os vampiros _nos concedia o poder de seduzir todos os mortais. Ao falar isso, lembrei-me de quando frei Emil me explicou o mito judaico, cabalístico, de Lilith, que teria sido a primeira mulher, antes de Eva, e que se separara de Adão para se tornar esposa de Samael, o anjo da morte. Ela, segundo o frei, era a senhora de todas as depravações, pecados venais e perdições carnais. Assim como também era bebedora de sangue, portanto mãe de todos os vampiros. Se assim o fosse, eu de fato era uma filha de Lilith, pois ardi em pecado desde a mais tenra idade. Às vezes me pergunto se a Dama de Azul não é a própria Lilith, que veio me receber, após minha quase morte, para avisar-me de minha maldição.

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