quarta-feira, 7 de março de 2012

INCÊNDIO


























Desta vez fomos direto para o castelo de Oanna. Ao meio do caminho, porém, encontramos outro esqueleto. Estava calcinado como os anteriores. Desci e o analisei, era de um adulto. Observei as cinzas e meu coração apertou. Uma flauta meio queimada jazia ao lado do corpo. Peguei-a, era uma flauta doce, como a que Dimitru usava. Ioan e Ciprian se aproximaram. Ambos seguram-me pelos braços e Ciprian falou:
_Marquesa, vamos embora. Estamos pressentindo algo muito ruim por aqui.
Não os contestei. Meu coração estava confuso, o que me impedia de usar minha intuição. Segui então com eles, pois estavam mais serenos e capacitados que eu. Cavalgamos por mais uma hora, quando notamos algo estranho ao longe, mais abaixo na floresta. Ouvíamos gritos e um clarão que como o de uma fogueira iluminava as árvores. Fiz menção de descer, mas Florin me deteve:
_Marquesa, não vá! Sinto que é muito perigoso!
_Tenho de saber o que está acontecendo! _reagi. _Fiquem aqui, voltarei em breve.
Desci então e, escondendo-me à sombra das árvores, cheguei perto o suficiênte do incidente. Para minha surpresa, acuada próxima a um rochedo, estava uma das pornai, a menor. Um grupo de soldados carregando tochas e com colares de alho no pescoço gritavam contra ela, projetando a imensa cruz em sua direção.
_Não a deixem escapar! _gritava uma voz conhecida.
Olhei na direção de quem falava. Era ele mesmo, Traian!... Empunhando estacas afiadas, seus soldados cercavam a pequena vampira, que mostrava os dentes e rosnava como um animal. Traian então gritou:
_A água benta! Joguem a água benta!
Um soldado metia a mão em um vaso e depois salpicava a pornai com água. Esta queimava em sua pele, fumaçando, como se fervesse. Horrivelmente, ela gritava.
_Aaaaaaaaaahhh!!!...
Caiu então ao chão e começou a se debater, apresentando queimaduras no rosto, peito e braços. Mesmo suas vestes haviam aberto furos, como se fogo as houvesse chamuscado. Ela toda fumegava. Traian então gritou:
_Vamos, seus imbecis, segurem-na!
Dois homens a seguraram pelos pulsos. Como ela se contorcesse com força invejável _própria dos vampiros _outros dois seguram-lhes as pernas. Por fim, quatro homens seguravam aquela pequena criatura nos braços e mais quatro nas pernas. Traian se enfurecia:
_A estaca! Depressa! A estaca!
Um soldado jovem e alto, de longos cabelos, tirou uma longa e afiada estaca de uma sacola em suas costas. Deu-a a outro soldado que a fixou no peito da pequena pornai. Tirou então uma marreta de sua sacola. Firmou-a nas mãos e, com um fortíssimo e seguro golpe, enterrou a estaca no peito da pequenina. O sangue esguichou de seu peito, melando sua himation branca e respingando no rosto de alguns soldados, que se afastaram e se limparam desesperados, como se o contato com aquele sangue os fosse amaldiçoar. O próprio jovem alto puxou uma flanela pano de sua sacola e enxugou o rosto, o pescoço, os cabelos e as roupas respingadas de sangue o mais depressa possível. Train continuava ordenando furiosamente:
_Agora a cabeça! Decepem a cabeça!
Novamente o jovem alto puxou sua espada e se aproximou da cabeça da pequena vampira, que a despeito da estaca em seu peito, ainda estrebuchava, vomitando sangue. O rapaz então agiu rápido e com perícia, mostrando sua habilidade na espada. Com um único golpe a cabeça da pornai foi separada do corpo, pulando sobre o chão e depois rolando para o lado, como uma bola de crianças. O sangue manchou o rochedo e o chão rochoso. Os soldados exultaram. Tomados de coragem, agora que ela estava morta, deitaram as tochas sobre seu pequeno corpo e a incendiaram. A leve himation espalhou o fogo sobro o corpo, que logo se tornou uma verdadeira fogueira, iluminando tudo em volta.
Perplexa, assistia a tudo vertendo lágrimas. As derramava primeiro porque, paradoxalmente, ainda me apiedava daquela maldita e pequena criatura que era trucidada ali. Depois porque pensava ter sido feito o mesmo com Calidora e as crianças. Dimitru também me vinha à lembrança. Neste momento de profunda consternação, a voz de János me despertou:
_Penso que deve ir embora, marquesa, se não terá o mesmo destino.
Voltei-me para ele e perguntei chorando:
_Fizeram o mesmo com Calidora, não foi?...
_Não sei, marquesa. Eu não sei... _respondeu ele me acariciando o rosto, com os olhos brilhando bondosa sinceridade.
Em seguida, me apressou:
_Agora vá, vá marquesa! Antes que eles a descubram aqui!
Foi então até seu burro carregado de quinquilharias e o montou. Caminhei com Agathon até seu lado e ele me olhou nos olhos e disse:
_Adeus, marquesa! Talvez não nos vejamos mais.
_Por que? _indaguei aflita.
_Vou para o norte, para a terra dos Habsburgos. Lá está mais seguro do que aqui. Tudo aqui está se incendiando.
Tirou então o chapéu de abas largas e curvou-se, numa leve mesura. Em seguida tocou seu burro _Eia! _e seguiu.
Ainda fiquei um tempo paralisada, vendo-o se afastar. Em seguida, não querendo ver aquela cena, toquei Agathon e segui, ultrapassando-o. Preferia deixá-lo para trás do que vê-lo partir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário