Uma luz mansa me acordou. Ela entrava suave na gruta, vinda de fora. Abri os olhos. Estava tranquila, relaxada. Languidamente me levantei e me espreguicei. Uma música ressoava. Pus o rosto para fora da gruta, para ver do que se tratava. Era uma festa. Pessoas pequenas como crianças, trajadas com estranhas roupas coloridas, cantavam e dançavam alegremente. Pelas suas feições, eram adultas. Na verdade, pareciam mesmo anões. "_São manós!" _conclui.
Sai da gruta sem medo, sorrindo. A noite estava linda, estrelada! Dois manós, que pareciam bem jovens, tocavam tambores. Outros dois, um gorducho e baixo e um magrelo e alto, tocavam alaúde. Outro ainda, sorridente e de longos bigodes castanhos, tocava címbalo. Um mais velinho, de barbas brancas, soprava entusiasticamente uma duda. Com os martelinhos, o cimbalista tirava sons que soavam como estrelas que voavam pelo ar, enquanto o fole da duda se inflava e depois soltava seu lindo choro pelos tubos. Todos outros então batiam palmas ritmadas e dençavam aos pares. Lembrei-me dos ciganos.
Absorvidos em sua festa, não ligavam para mim. Olhei então em volta e notei que eles haviam iluminado o local com pequenas tochas. Por detrás delas, nas sombras da noite, sentia toda uma estranha vida fervilhando na floresta. Deixei os festivos manós e fui ver o que encontrava na floresta. A lua cheia iluminava tudo como se fosse quase um Sol noturno. Tudo então tomava uma tonalidade azul-esverdeada. Ouvi então o som de uma cachoeira. Caminhei em sua direção. Começei a ouvir risos e sons de água batendo. Uma pequena, porém forte e linda cascata caía em um lago que eu jamais vira antes. Moçinhas lindas,visivelmente tünders, nadavam e jogavam água umas nas outras. Suas feições era púberes, mas suas orelhas pareciam longas e de pontas finas. Elas se projetavam para fora de seus cabelos.
Continei caminhando à frente e vi um homem de cabeça baixa, sentado sobre um pedregulho. Ele apoiava a cabeça com as mãos, como se estivesse muito preocupado. Fui até ele e toquei em seu ombro. Ele olhou para mim, tinha olhos grandes e castanhos. Eu então lhe perguntei:
_O que houve?
_Não sei... Me perdi na floresta. Não sei mas como voltar para casa. _respondeu.
_Onde mora? _quis ajudar.
_Moro um pouco mais abaixo do morro. Perdi uma de minhas ovelhas. Fui procurá-la e a encontrei. Mas fui atacado por um lobo. Ele me mordeu no pescoço, olhe... _e mostrou-me as profundas marcas de dentes, ainda sangrando.
Toquei de leve em seu ferimento. Vi o sangue na ponta de meus dedos e... finalmente o reconheci!... Era ele, o pastor que eu havia matado. O reconheci pelo cheiro e pela testura de seu sangue. Tremi da cabeça aos pés. Fiquei fria, gelada. Minha cabeça começou a rodar. Levei a mão à testa e ainda o ouvi falar:
_Moça, está bem? Moça! Está me ouvindo?...
Tudo rodou... Minha vista escureceu... Quando abri os olhos, estava deitada na caverna. Fiz mensão de me erguer, mas uma nesga de luz solar banhava o chão. Como se me defendesse de uma cobra, me encolhi em um canto. Não entendia! Eu temia o sol! Temia sua claridade, temia seu calor, temia-o, enfim! Fiquei então ali, encolhida, até ele ir dormir.
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