domingo, 10 de abril de 2011

MARIPOSA

























Não tive de esperar muito para o sol se recolher. O outono logo joga suas brumas e dias mais claros são raros. Não demorou para eu poder pôr minha cabeça para fora da gruta, como se fosse um animal selvagem. Sai em meio à tarde cor de chumbo. Penso que devesse passar do meio dia. De fato, eu perdera a noção do tempo. Andei pela floresta, pisando nas folhas secas. Tons amarelos e avermelhados matizavam a vegetação.
Repentinamente, a simples imagem de um bordo com a copa toda vermelha me fez lembrar de papai. Era capaz de ver nós dois nos beijando sob sua sombra, nos escondendo por trás de seu tronco. A lembrança de tudo o que acontecera invadiu minha alma e desabei num choro desesperado. O queria!... Meu coração ardia! Um desejo imperioso de tê-lo novamente me tomou. Decidi, enlouquecida, que iria buscá-lo! Iria tomá-lo de volta para mim! Iria vampirizá-lo para que vivêssemos nosso amor amaldiçoado para sempre! Possuída pela paixão, rumei para o lado onde meu coração dizia estar nosso castelo.
Perambulei como uma criança perdida, derramando um rio de lágrimas, até ser desperta de meu transe pelo cheiro de carne de leitão assada. Lembrei-me então que não me alimentara de nada sólido há mais um dia. Fui seguindo o delicioso cheiro feito um jovem carnívoro desavisado. Por detrás de galhos e folhas secas, vi um grupo de pastores comendo um leitão. Eram quatro ao todo e estavam armados com mosquetes. Um instinto novo me fez concluir que eles não seriam nada amigáveis comigo. Enquanto comiam nacos de leitão com pão e goladas de vinho, conversavam:
_Ele não deve estar longe, deve ser o mesmo que atacou meu cavalo, quando este fugiu na terça passada. _disse um homem forte e rude, de barba e cabelos negros encrespados, ostentando quarenta anos, visivelmente o líder deles.
_Acha que será fácil encontrá-lo? _questionou um sujeito mais baixo, que aparentava ter uns trinta anos, tinha cabelos castanhos e lisos, longos até o fim do pescoço, e rosto que lembrava o de uma águia. A despeito disso, parecia ser calmo e sensato.
_Sim, deve ser um vampiro novo, talvez de algum adolescente idiota! Vampiros antigos não ousam nos atacar. Nem a nós pastores, nem aos ciganos. Eles sabem que seriam facilmente encontrados e mortos. Vampiros maduros preferem as estradas e os viajantes incautos. _explicou o líder.
Ao ouvir isso, cai em mim. Eles estavam ao meu encalço. Iam me caçar como a um maldito animal. Isso encheu-me de ira, quis estraçalhá-los. Porém, um inesperado calcanhar de Aquiles revelou-se para mim, o líder ordenou aos demais:
_Bem, já estamos de estômago cheio, vamos à caça! _e abriu sua bolsa, puxando um cordão com cabeças de alho.
O cheiro do alho já me enjoou, porém, quando ele mordeu um dente, foi como se um gás surgisse das profundezas do inferno! E este gás queimou minha garganta, minhas narinas, meus olhos e meus pulmões! Afastei-me soltando um rosnado sibilante. Atordoada, corri, fugi daquele odor como quem foge do fogo. Meu sofrimento era intenso, pois do peito para cima, tudo em mim ardia. Mal conseguia enxergar, meus olhos lacrimejavam como se eu andasse em meio à fumaça. Por fim, encontrei uma árvore larga e escolhi cair por detrás dela. Tombei de joelhos no chão e dobrei-me para a frente, respirando com dificuldade, quase sufocada. Tudo queimava! Fiquei ali, dobrada, sofrendo, até que pouco a pouco a ardência foi amenizando. Devo ter derramado um rio de suor. Enquanto me recuperava, minha razão também foi voltando e comecei a me censurar: "Como pude ser tão tola?!... É claro que os pastores já estão acostumados aos vampiros. Estes são uma fera exótica, raros o suficiente para deixar marcas bem claras de sua passagem!". Eu de fato ainda não entendia a maldição que me acometia e nem o tipo de vida que ela criava.
Mal melhorara meu estado físico e já comecei a ouvir os gritos dos caçadores:
_Foi por ali, eu vi! Parecia uma mulher! _dizia a voz do sujeito de trinta anos.
Ergui-me reunindo forças e voltei a correr. Ainda me afastando, olhei para trás e vi os homens me seguindo, à cerca de trinta pés de distância, com os mosquetes em punho. O que eu faria?... Foi quando uma inacreditável intuição me veio como um estalo! Sem pensar, olhei à minha direita. Estendi minha mão pálida e as folhas deitadas na terra se ergueram como se um animal passasse correndo. O som de seus passos até ressoaram no solo. Olhei para frente e, já longe, vi os homens irem na direção dos passos ilusórios. Corri morro acima. Havia descoberto meu primeiro poder: o de iludir! como uma mariposa fantasmagórica.

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