Deixei o corpo do pastor ali, à beira do riacho, e me enfiei na floresta. Caminhei por horas, como quem simplesmente passeia num dia ensolarado. Meu pescoço e pulsos não doíam mais, nem os sentia mais inchados. Meu corpo estava aquecido por dentro e suportava o frio da noite outonal como se fosse o de uma fresca manhã de primavera. Sentindo-me bem, pela primeira vez depois de várias semanas, eu cantarolava feito uma menina ingênua. Pela primeira vez, maravilhei-me com os fachos de luz da Lua entrando pelas frestas das copas dos pinheiros. Antes só vira os do Sol fazendo isso. O piado de uma coruja branca ressoou e eu a vi planar e depois bater levemente as asas, passando sobre mim. Achei lindo!... Ouvi então o som de leves passos pisando galhos e folhas secas, à minha esquerda. Voltei-me para olhar e vi a silhueta de uma pequena raposa, fazendo sua ronda sem se importar comigo. Os passaros noturnos cantavam suas melodias bizarras. Os morcegos passavam rápido sobre minha cabeça, soltando seus gritinhos finos.
A bruma então começou a fechar. Deixei ela me envolver, mergulhei nela. Tudo à minha volta era névoa. Eu respirava névoa. Era como se floresta estivesse sob um imenso dossel, de onde caíam véus brancos, semitransparentes, que cobriam a tudo. E eu brincava em meio a estes véus. Procurando, encontrando, me escondendo... Esticava os braços, abria e fechava as mãos para "pegar" na névoa. Ria, me divertia... Realizava meu desejo de criança de me perder na floresta e ficar o tempo todo brincando. Assobios sombrios e sons fantasmagóricos me cercavam. Não tinha medo deles. Tinha-os como crianças que brincavam comigo. Brincavam de esconder.
_Miiiklos!... Kataliiin!... Eu vou achar vocês!... _dizia em falcete, olhando em volta, lembrando de quando brincava com os filhos de Marton. E era como se eles estivessem à minha volta, se escondedo, me chamando. Parei então de brincar dizendo baixinho: _Ainda vou achar vocês!...
A noite é tão estranha... e tão linda!... Continuei caminhando, cantarolando, às vezes rindo sozinha, feito uma tola. Não temia fantasmas, feras, duendes... vampiros!... Eu era mais um ser noturno e a consciência disso me dava toda uma calma satisfação. Enfim havia algum alívio no inferno. Como alma perdida não temia mais um monte de coisas. Toda uma beleza há muito escondida era a mim revelada agora. E eu sentia paz... Finalmente sentia paz!...
Porém, a paz acabou por trazer o sono. Foi quando me dei conta de que não descansava fazia muito tempo. Das noites mal dormidas ainda no castelo de tio Stiván, até aquele momento, meu corpo não tivera o merecido repouso. Foi quando encontrei uma acolhedora gruta. Entrei nela. Era seca e não tinha insetos. Deitei no chão, fechei os olhos, dormi... morri.
muito bom. poética esta passagem. a novela toda é uma caixinha de pandora. o leitor fica aprisionado. envolvido.
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