quinta-feira, 14 de abril de 2011

ASSOMBRAÇÃO




















Cena de Drácula, 1979.



Foi como um animal que recebi a chegada do inverno. Minhas roupas se tornaram andrajos! Meu vestido sequer cobria minhas pernas, havia se transformado em farrapos soltos. Eu era praticamente um bicho, vivendo do que caçava e me escondendo em tocas. Tendo alcançado o Cheile Bicazului, encontrei um mundo de grutas para me esconder. Durante pelo menos um mês _enquanto o inverno estava em seu período mais violento _me alimentei da carne e do sangue de animais, devorando-os crus. Meu poder de encantar as presas me ajudou. Era capaz de tirar grandes falcões dos galhos como se fossem dóceis passarinhos. Só para depois devorá-los com vísceras e tudo.
Mas eu ainda pertencia ao reino dos homens. Ainda tinha sua alma confusa, que mistura razão e paixão. Em um início gelado de tarde, eu cheguei até uma estrada. Nela havia um carroção de ciganos parado. Eles haviam passado a noite ali, pois dois homens tiravam a neve que se acumulara sobre as rodas. Uma mulher, aparentando vinte e poucos anos, cuidava de cinco crianças, que insistiam em correr de um lado para o outro, apoquentando-a. Ouvia-a gritar o tempo todo, chamando uma ciganinha que devia ter não mais que quatro anos:
_Mathuanka! Mathuanka!... _e lhe estendia a mão e ralhava em sua língua, a qual eu não entendia nada.
Enquanto a jovem se ocupava das crianças, uma velha cigana abanava com sua ventarola uma pequena fogueira improvisada, para alimentar as chamas. Neste momento a pequena Mathuanka _que era uma linda menina de cabelos e olhos castanhos _correu em minha direção, sem perceber minha presença detrás do pinheiro em que me escondia. Quando a vi ali tão próxima, linda e pequena como um manó, meu coração se enterneceu e tive vontade de abraçá-la. Lembrei-me imediatamente de Lísia e Sarka. Comecei a balbuciar, com lágrimas nos olhos:
_Linda! É tão linda!...
Tomada por sua graciosidade, a chamei baixinho:
_Mathuanka!... Mathuanka!...
Ela olhou para mim e parou. Ficou ali observando-me com estranheza, como eu mesma fazia quando criança, quando encontrava um vampiro. Sem querer assustá-la, a convidava chamando levemente com as mãos:
_Venha, Mathuanka!... Não tenha medo, não vou lhe machucar!... _argumentava eu em falsete.
Neste momento a jovem mãe se aproximou chamando a pequenina. Ao me perceber, teve um sobressalto, apontou o dedo em minha direção, gritou e me delatou:
_Aaaaahhh!!!... Mulo! Mulo! Mulo!...
Mais que depressa um dos homens acorreu. Tão logo me viu, estacou e arregalou os olhos. Desembainhou então uma pistola da cinta e apontou-a para mim, vociferando ameaças em sua língua. Sua reação era um misto de medo e agressividade que me assustava. Seus olhos saltavam e seus bigodes tremiam. Percebendo que o melhor seria bater em retirada, deslizei para detrás do pinheiro e corri para me embrenhar na floresta. Ele então disferiu um tiro que tirou lascas da pobre árvore. Teria me acertado se eu insistisse em permanecer lá.
Corri sem parar, até não conseguir mais ouvir as ameaças do furioso cigano. Meu coração batia acelerado e veio-me a vontade de chorar. O que eu havia me tornado?... Que espécie de bicho eu era?... Caminhei absorta em minha culpa, até deparar-me com um córrego que já conhecia, devido à minha nova vida selvagem. Suas águas ainda não estavam de todo congeladas, por isso ajoelhei-me à sua margem para poder olhar meu próprio rosto, o que não fazia há muito tempo. O que vi estarreceu-me!... Eu era branca como a própria neve, quase azul!... Meus olhos tinham um aspécto estranho, parecíam vítreos e seu branco estava avermelhado. Meus cabelos estavam desgrenhados e cobertos de neve, e meus lábios estavam ressecados e sem cor, como os de um morto. Desesperada, levei as mãos ao rosto e começei a chorar.
_Eu sou uma assombração!... Eu sou uma assombração!...

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