
Embrenhei-me na floresta a partir desse dia. Queria estar o mais distante possível dos pastores. Um misto de medo e culpa me invadia. Eu era a criminosa, eles os meus carrascos. Não lembro o quanto tempo corri, mas me afastei o suficiênte para desconhecer completamente a região onde de me encontrava. Parei e descansei. Não demorou para que o cheiro do leitão me voltasse à memória. Que inferno! Eu estava faminta e sequer sabia caçar. Olhei em volta para ver se encontrava arbustos com frutinhas. Nada! A fome me assolava. Só não era mais forte porque não vinha acompanhada de fraqueza. Foi quando percebi a força do sangue. Não fosse ele, talvez tivesse desfalecido.
Conclui então que deveria continuar caminhando, pois talvez encontrasse um animal qualquer. Ainda estava assustada pela perspectiva de ser caçada, por isso minha mente já refletia sobre como consumir o animal. Beber seu sangue simplesmente seria me delatar. Deveria então comê-lo cru, como uma fera. Mal terminara de pensar assim e surgiu, a alguns metros à minha frente, sáido detrás de uma moita, um lebrão. Era imenso! A despeito de minha ansiosa fome, parei e fui-me abaixando, observando-o. Queria pegá-lo da melhor maneira. Então pensei quase como numa brincadeira: "_Eu quero você!... Você é meu, meu lebrão!... Fique ai parado... deixe eu pegar você!...". Estranhamente fui pensando isso repetidamente. Percebi então que o lebrão sentou e permaneceu imóvel, como se obedecesse aos meus pensamentos. Pé ante pé, me aproximei dele. Quando cheguei bem perto, agachei-me e o acariciei. Ele fechou os olhos, aceitando minha carícia. Vendo-o passivo e entregue, tomei-o nos braços. Era grande e pesado. O beijei e acariciei. Olhei em volta e o levei comigo para detrás de uma moita grande, à meio caminho, à minha direita. Senti seu calor, sua pelagem macia e seu coração batendo forte. O beijei, para me despedir dele e fazê-lo sentir que não o matava por mal. Com um golpe muito rápido e forte, quebrei seu pescoço, creck!... O corpo dele amoleceu. Como uma loba faminta, dei a primeira mordida e começei a rasgar a pele.
O lebrão foi minha primeira presa, viriam outras mais. Porém, nem sempre tinha sorte _e mais! _possuia um poderoso inimigo: o sol!... Muito embora seja raro ele aparecer no outono, as vezes em que sua claridade me pegou de surpresa foram terríveis! Um medo indescrítvel me tomou, como se eu fosse uma criminosa delatada pela luz que vinha do céu, "do trono divino". Minha pele ruborizou e meus olhos se ofuscaram. Procurei então, desesperadamente, a sombra das árvores. Eu era agora isso... uma fera! Uma fera das trevas!
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