terça-feira, 19 de abril de 2011

SANGUE EMBRIAGADO

























Ilustração de Aqualung, Jethro Tull.



Enquanto o inverno estava forte, eu era uma fera solitária no Cheile. Não tinha outra companhia senão a dos animais. Mas bastou o inverno amenizar para estranhos visitantes aparecerem. Vinham em pequenas caravanas, montados em seus cavalos e trazendo suas mulas carregadas de grandes trouxas. Como pude esquecer da existência dessas criaturas?!... Ladrões e contrabandistas! Quem mais se arriscaria a enfrentar qualquer perigo, conhecido ou lendário, em nome da ganância? Logo na primeira vez que os encontrei, notei que seríam vítmas fáceis de minha fome.

Os primeiros que encontrei, vinham enfrentando destemidamente a noite gelada do inverno. Desci de meu esconderijo, esgueirando-me por trás das rochas e arbustos, até ficar à boa distância de sua passagem. O som calmo e compassado dos cascos de seus animais ecoava pela tortuosa trilha natural do Cheile, entre os paredões de rocha. Eram três. Conclui rapidamente que pegar o último da fila era o correto a se fazer. Permaneci atrás de uma rocha, vendo-os passar diante de mim. Quando pude ver as costas do último, o mais baixo deles, corri rapidamente e pulei em sua garupa. Com o braço direito, o abracei firmente, com a mão esquerda tapei-lhe a boca, com uma dentada poderosa, sorvi seu sangue. O cavalo obviamente sentiu o súbito aumento de peso em suas costas e relinchou. Rapidamente derrubei minha presa e o fui arrastando para detrás de uma rocha. Ele já estava desacordado. Os outros dois voltaram-se para trás e me viram levando seu comparsa.

_Alin!... _gritou um deles, com claro sotaque romeno.

Um tiro foi disparado, acertando o solo e levantando neve, bem próximo de mim. O mais depressa possível levei o pobre Alin para detrás da rocha. Enquanto os dois se aproximavam, não perdi tempo e suguei o máximo de sangue possível. Antes que saltassem de seus cavalos, quebrei o pescoço de minha vítima, para que seu corpo não pudesse receber seu espírito novamente. Não desejava minha maldição para ninguém. Fugi então rapidamente por entre as rochas e arbustos enquanto as vozes dos dois contrabandistas ecoavam entre lamentos e maldições:
_Alin!... Oh, meu Deus! Não, Alin!... _disse a voz seca de um, em romeno.

_Vampiro desgraçado! _praguejou o outro, também em romeno. Em seguida desferiu outro tiro de pistola.

Eu, porém, já estava bem longe de seu alcançe. Apenas continuei ouvindo o ladrão romeno praguejar:

_Eu vou matar você, seu demônio desgraçado! Eu vou matar você!...

Meu segundo contrabandista fora até mais desafortunado que o primeiro. Ele resolvera saltar do cavalo, ao meio de uma tarde, para urinar à beira da estrada. Eu já o esperava detrás de uma rocha. Seu único parceiro assobiava uma velha canção, tranquilamente, montado. Não esperei minha vítima sequer pôr o membro para fora, o ataquei rápida como uma cobra. Mais uma vez sorvi o sangue com força, tapando a boca de minha presa. Seu sangue estava encharcado de vinho vagabundo da Romênia. Quebrei então seu pescoço e corri para me abrigar. Seu amigo de pândega simplesmente continuava montado, cantarolando em romeno, com a voz arrastada. Não o esperaria cair também, para poder beber seu sangue. Confesso que sangue embriagado não me agradou nem um pouco. Além do sabor ruim, me causou um mal estar tão grande que vomitei.

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