
Uma noite perguntei à Oanna:
_Existe alguma redenção, ou alguma remissão para nós, vampiros?
_Sim. _respondeu ela imediatamente.
_Mas como, se atentamos contra as leis de Deus? E eu, por sinal, o reneguei!
_Renegou ao Deus cristão, mas será que só ele existe?
Este argumento me fez silenciar e pensar. Ela prosseguiu:_Toda vez que preciso de proteção, peço ao único deus que me aceitou: Yarilo.
_Nunca ouvi falar nele._Minha avó contava antigas lendas em que ele aparecia. Ele é o deus da sensualidade para os antigos povos que abitavam aqui, por isso foi o único a aceitar minha súplica.
_Você o viu... no reino dos mortos?_Uma única vez. Uma noite, eu me encontrava em estado tão miserável em minha antiga caverna, que clamei por qualquer força que por mim se compadecesse. Era um inverno terrível! Nenhum viajante se aventurava pelas estradas, nenhuma tropa marchava em tão maus dias. Até mesmo os animais estavam escassos. Chegou ao ponto de eu ter de me contentar com as raras baratas e morcegos que eu encontrava. Uma noite, quando perdi uma barata, que talvez fosse minha única refeição naquele triste dia, cai de joelhos e clamei por qualquer deus que escutasse minha amaldiçoada alma. Curvei-me e baixei minha cabeça no chão, chorando. Foi quando ouvi o ruído nítido de um rato. Ergui a cabeça e lá estava ele, grande e gordo. Tomada pela fome, consegui encantá-lo e paralisá-lo. Tomei-o então nas mãos e o comi plena de gratidão. Logo em seguida desfaleci. Desci então ao mundo dos mortos e me vi em uma clareira, diante de um jovem lindo, luminoso. Tinha cabelos compridos e dourados, seus olhos eram de um azul indescritível, eram como pedras preciosas. Usava roupas como as de um príncipe, douradas e reluzentes, como seus cabelos e barba. Ele estava sentado em uma soberba cadeira de madeira entalhada, que lhe servia de trono. Ela olhou sereno para mim e disse com sua voz máscula, mas meiga:
_Espero que tenha gostado do presente que lhe enviei.Lembrei-me imediatamente do rato, corri, me curvei, de joelhos, diante dele e comecei a chorar e agradecer.
_Obrigado! Obrigado, senhor! Obrigado!..._Não chore, Oanna! _disse ele. Eu pude sentir sua mão tocando gentilmente minha cabeça. Ele então falou, enquanto eu soluçava _Eu sempre estive ao seu lado, embora não me conhecesse. Você sempre aceitou minha oferenda, muito embora lhe ensinassem que ela é algo abominável.
Ao ouvi-lo falar assim, ergui minha cabeça e o fitei sem entender. Ele então me explicou:_Você sempre amou o prazer, sempre. Nunca rejeitou minha oferenda. Por isso eu estou aqui, ao seu lado... como sempre estive.
O entendi prontamente e baixei minha cabeça chorando. Agarrei-me então aos seus pés e banhei suas belíssimas botas com minha lágrimas. Ele então me disse:_Você não chorará mais de fome, Oanna, nunca mais! Sempre que precisar, chame por mim: Yarilo!
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