segunda-feira, 22 de agosto de 2011

APRENDIZADO





Após uma noite subindo pelas paredes, Oanna me ensinou a mergulhar na mente de outras pessoas. Não é tão fácil. Tem-se de sincronizar sua respiração com a respiração da pessoa cuja mente você deseja invadir. Levei três dias até conseguir sincronizar minha respiração com a de Sanziana. A dificuldade era aumentada em virtude de eu ter de fazer isso sem que ela percebesse. E ao conseguir, minha frustração foi imensa, pois constatei que o fluxo mental de uma pessoa é extremamente confuso. Trata-se de uma tempestade de falas contraditórias, que se entrecortam, duas, três, quatro ao mesmo tempo. O que a mente verbaliza em seu tagarelar profuso é digno de ser chamado de loucura, não passa de uma conversa de lavadeiras! Quando me queixei disso à Oanna, ela me explicou:
_Sendo assim, centre sua atenção no que a pessoa sente _no seu coração! _é isso o que realmente importa. Este é o centro de sua alma, o seu sentir. Perder tempo com a fala mental é querer perder o próprio juízo.
_Percebi... _concordei sem contestar.
Segui então suas instruções e percebi que, centrando-me no coração, podia divisar, numa linha lógica, a sucessão sinuosa de sentimentos de uma pessoa, decifrando o que ela estava pensando. 
Num outro dia, Oanna me ensinou:
_Quer ter servos leais, que estejam sob seu total controle?... Dê a eles o seu sangue... para que bebam!
_Beber o meu sangue?... Um sangue amaldiçoado!
_Sim, exatamente isso! A maldição os tornará seus escravos. Você não apenas reinará sobre sua vontade, como poderá mesmo ver com os olhos deles, saber onde estão, o que fazem e o que estão pensando.
_Quer dizer que não teria o trabalho que tive para ler as mentes, se suas criadas tivessem bebido meu sangue? Por que não me disse isso antes? _irritei-me.
_Deve aprender o mais difícil primeiro. _pontifiocu Oanna.
Em seguida continuou:
_Todos os vampiros que estão sob minhas ordens beberam de meu sangue, por isso me obedecem cegamente. Mas veja, faça isso apenas com as mentes mais fracas, jamais com mentes fortes.
_Por que? Não seria mais sábio ter os mais fortes como servos leais? _questionei.
_Os mais fortes jamais serão seus servos. Ao dar seu sangue a eles, abrirá sua própria mente ao poder deles. Eles é quem verão com seus olhos e saberão onde você está e o que faz e pensa.
_Compreendo... _ponderei.
Oanna também me ensinou a conversar apenas com os pensamentos:
_Tudo consiste em reconhecer o que é um pensamento avulso e o que é a voz de alguém que lhe chama. _explicou.
Ao tentar com ela, reconheci sua voz chamando em minha mente. No início soou fraca, quase inaudível. Mas quando lhe dei atenção, sua voz se tornou mais forte, se distinguindo claramente da caótica tagarelice mental. Com o passar dos dias, conversamos mais e mais, até que dominei complentamente a técnica. E, após dominá-la, Oanna me ensinou à manipular as mentes mais fracas, conforme minha própria vontade. Se antes já conseguia imobilizar animais, agora era capaz de comandar rebanhos, varas, alcatéias inteiras para que fizessem o que eu lhes ordenasse. Quanto às pessoas, somente as muito fortes de espírito, ou os iniciados, escapariam ao meu comando.
Por fim, ela ensinou-me a ir de um lugar para o outro num piscar de olhos. Na verdade, todos as almas desencarnadas fazem isso facilmente, apenas os amaldiçoados _meio mortos que são _têm de descobrir e aprender a usar tal poder. É óbvio que, ao dominar tal arte, decidi ir até Calidora. Porém, ao chegar em sua gruta, ela estava vazia. Todas as suas coisas se encontravam lá, mas não havia o menor sinal dela e das crianças. Seu perfume característico de rosas impregnava o ar, mas ela não estava nem no "quarto", nem no lago subterrâneo.
Em um piscar de olhos, fui até a estrada. Os salteadores _que não podiam me ver _estavam lá, mas nada de Calidora. Fui até o lago de Santa Ana... Nada!... Lembrei-me da encruzilhada onde encontrávamos os ciganos!... Encontrei apenas marcas de rodas de um carroção sobre o solo. Minha intuição me dizia que Calidora estivera ali, mas já não estava mais! Sentindo-me confusa, não conseguindo mais captar sua presença em lugar específico, retornei ao castelo. No quarto, Oanna me recebeu com um sorriso sarcástico nos lábios.
_Acho que sua amiguinha grega não está muito interessada em reencontrar você. _debochou.
_E eu não estou interessada em conversar com você! _respondi malcriada, saindo do quarto em seguida, batendo a porta.

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