terça-feira, 16 de agosto de 2011

BRUMAS




















Sair do corpo não foi mais nenhum mistério, mas Oanna ainda tinha técnicas assustadoras para me ensinar. Quando cheguei ao portão, ela já me aguardava. Porém, me surpreendeu mais uma vez:
_Fique na forma mais densa possível!
Concentrei-me então, relaxei, expirei e meu corpo etéreo se tornou mais denso, visível. Oanna sorriu satisfeita e começou a lição daquela noite:
_Sei que o que verá não agradará muito, mas preste atenção!...
Ela então aproximou-se do grande portão de madeira, que estava fechado. Projetou sua mão em direção à fina fresta entre duas tábuas e... começou a penetrá-la!... Confesso que achei horrível ver aquilo pela primeira vez. A mão de Oanna parecia ser feita de pasta, sua carne se espremia sem sangrar, penetrando a fresta. Ela passou a mão toda e começou a passar o braço, a manga de seu vestido se encolhia horrivelmente. Achei aterrador e meu rosto se contraiu de horror. Ao ver meu mal estar Oanna riu. Ainda com o braço, até a metade, entre as tábuas, explicou:
_Sim, Irina, é horrível! Por isso que você deve fazê-lo! Isso assusta nossos oponentes!
Entendi sua lição, mas ainda a achava indigesta. Ela então me provocou e encorajou:
_Para quem foi o novo fantasma branco do Cheile você é melindrosa demais, Irina. Vamos, me acompanhe. Vou passar para o outro lado, se quiser ficar sozinha ai, fique!...
Como se fosse uma pasta sendo esmagada pelo rolo de massa, espremeu-se pela fresta e passou pouco a pouco para o outro lado. Não pude deixar de fechar os olhos quando vi seu rosto se deformar. Ao abrí-los, ela não estava mais diante de mim. De repente, ouvi sua voz, do outro lado:
_Você vem, ou não vem, Irina?
Sem alternativa, me sentindo provocada, enfiei minha mão entre a fresta das tábuas e comecei a atravessá-la. Vi que não era de forma alguma difícil, eu parecia feita de nuvem. A sensação era intrigante, sentia cada poro da madeira me fazendo estranhas cócegas. Comecei a passar o tronco sem sentir nenhuma dor, apenas a estranha sensação de minha carne se espalhando como se fosse a mais macia seda. Quando passei a cabeça, meus olhos se espalharam e pude ver cada poro da madeira. Por fim, meu rosto saiu do outro lado e pude ver Oanna rindo. Terminei de vazar pela fresta e esbravejei:
_Do que ri?!
_Agora sim, está feroz e aterrorizadora como deve ser uma vampira! _gozou.
_Vou acabar com você! _ameaçei.
_Não prefere acabar com eles?... _respondeu apontando para a floresta.
Olhei para a floresta e a vi estranhamente escurecida entre as árvores. Sua atmosfera estava realmente enegrecida.
_O que é isso, o que está escurecendo a floresta?
_Demônios, Irina! Cada parte escura que você vê... é um demônio.
Olhei para aquele imenso fundo escuro e senti como se muitos olhos me fitassem ameaçadoramente.
_Eles estão olhando para mim? _perguntei a Oanna, como uma criança medrosa.
_Você sabe que sim.
_Como posso passar por eles? _estremeci.
_Tem fé em algum deus?
Imediatamente lembrei-me da noite com Ivan e de como agradeci a Vênus por me redimir. Então respondi a Oanna:
_Tenho sim!
_Então vamos! _convidou me estendendo a mão.
Peguei em sua mão e ela instruiu:
_Agora inspire e depois expire... e dissolva seu corpo.
Fechei os olhos e fiz o que ela mandou. Senti meu corpo como que se dissipar, tornando-se cada vez mais leve. Senti que não definia mais se tinha pernas ou braços, muito embora, estivesse, de alguma forma, tocando o chão. Abri os olhos e vi apenas uma névoa vermelha, levemente rosada, à minha frente. Foi quando a voz de Oanna soou, um tanto etérea:
_O que você vê é seu corpo. Volte seu o foco de seu olhar para mim.
Senti como se meus olhos estivem soltos no ar e voltei-os em direção da voz dela. O que vi foi uma névoa vermelha acastanhada, que descia rumo à floresta, pairando sobre o chão.
_Vamos, Irina, me siga. _ordenou ela.
A segui. Simplesmente adentrei na floresta sentindo meu corpo tocar em tudo, árvores, folhas, insetos, o chão... Eles não me feriam, sentia-os me atravessarem, fazendo leves cócegas. Nos aproximamos do terrível fundo enegrecido e vozes ameaçadoras, masculinas e femininas, começaram a soar:
_O que quer aqui, Irina de Somlyó? Sua puta! Sua rameira! _inquiria uma voz masculina.
_Ela quer trepar! Ahahahaha!!! _zombou uma voz feminina, vulgar como de uma asquerosa rameira, velha e bêbada.
_Insetuosa! Insestuosa! _acusava outra voz masculina, muito abafada.
_Sua puta! Sua vadia! Matou sua mãe! Trepou com seu pai! Trepou com seu pai e matou sua mãe! _acusava uma feroz voz de megera.
Comecei a me sentir ofendida mas, adivinhando o que eu sentia, Oanna veio em meu socorro:
_Não dê ouvidos a eles, Irina. Mande-os calarem a boca e tenha fé.
As acusações aumentaram:
_Passeando com sua amante lesbiana, heim, Irina! Ahahahahaha!!! _provocou outra voz masculina.
_Ela uma puta lesbiana como a irmã, aquela freira devassa! _acusou a megera.
A fúria subiu-me à cabeça e vociferei:
_Não fale de minha irmã sua megera asquerosa!
Ouvi em resposta um imenso coro de gargalhadas. As vozes voltaram a insultar:
_A putinha ordinária ficou ofendida! _zombou a voz de velha bêbada.
_Não passa de uma rameira! _acusou a megera.
Minha ira atingiu o auge, mas fiz o que Oanna recomendou, tive fé! Imediatamente desferi meu ataque:
_Cale a boca sua megera, ou minha Mãe acabará com você! Aliás, com todos vocês! _ameaçei lembrando de Vênus.
O que aconteceu em seguida foi um dos espetáculos mais aterradores que presenciei em minha vida. Um imenso coro de gritos e urros pavorosos ecoou pela floresta. Uma ventania digna das piores tempestades surgiu de repente e revolveu a floresta como se quisesse varrê-la da face da Terra. O vento, com seus assobios assustadores, parecia então levar as vozes para longe. Percebi claramente que aqueles demônios malditos desciam de volta ao inferno. A medida que as vozes foram sumindo, o vento foi acalmando e, como num passe de mágica, a floresta tornou-se clara e serena, iluminada pela lua cheia.
_Muito bem, Irina! Venceu sua primeira batalha! _elogiu Oanna.
Apenas sorri em resposta. Ela então ensinou:
_Acho que agora podemos nos transformar em filetes, ao invés de sermos estas brumas tão bizarras. Inspire e sentirá seu corpo se reduzir.
Obedeci e realmente senti-me reduzir ao ponto de me transformar em uma fina serpente de fumaça. Olhei para o lado e vi Oanna na mesma forma. Ela então convidou:
_Agora vamos passear tranquilas, apenas spiridus e doces almas penadas nos esperam pela frente.

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