domingo, 31 de julho de 2011

VOAR






















A primeira lição de Oanna foi simples:
_Já experimentou andar fora do corpo, aqui no mundo dos vivos, Irina?
_E isto é possível? Que eu saiba, somos vampiras e não fantasmas. _desdenhei.
_Somos meio fantasmas, querida. _rebateu ela.
Ri levemente em resposta.
_Veja, vou me deitar no divã e adormecer. Não tire os olhos de mim, até eu lhe chamar.
_Sim.
A vi deitar e fechar os olhos. Não demorou a expirar. Vendo-a ali, praticamente morta, aproximei-me e balancei seu corpo. Sim, estava sem vida. Cheguei a festejar em meu coração, porém, não tardei a ouvir sua voz novamente:
_Cedo demais para comemorar, querida.
Virei-me e a vi diante de mim. Sua imagem assustava. Ela estava de pé, sobre o chão, mas parecia não pisar nele. Sua imagem não produzia sombra e emanava uma ligeira luminosidade. Ela deslizou em minha direção e eu me afastei. Ela riu:
_Com medo, Irina?
_Ainda não o suficiente. _desafiei.
Ela riu levemente e convidou:
_Então saia de seu corpo também e vamos dar um passeio.
_E isto seria fácil, como tirar as roupas? _queixei-me.
_É simples. Quando expirar, volta sua lembrança para esta sala. Não se deixe levar para qualquer lugar.
_Tão fácil! _desdenhei.
_Tente. _desafiou ela.
Sentei então na cadeira ao lado do divã e relaxei. Tão logo a lassidão me tomou, senti que ia expirar. Fixei a imagem da sala em minha mente. Quando abri o olhos, estava de pé, diante de Oanna. Ela continuava luminescente, porém tudo à minha volta emanava esta estranha luminosidade. Olhei minhas mãos e elas também estavam luminosas. Oanna pediu:
_Venha até aqui.
Mal tive a intenção de mover os pés e simplesmente deslizei sobre o chão. Parecia mesmo que o chão era feito de manteiga. Oanna pegou minhas mãos e senti como se sua carne vibrasse suavemente.
_Que estranho! _admirei-me.
_Venha, querida! _convidou ela, pegando-me pela mão. _Vamos descer e passear um pouco.
Fomos em direção à porta e passamos por ela sem abrí-la, a atravessamos. Senti sua vibração específica, mas fraca que a das mãos de Oanna. Deslizamos escada abaixo e entramos na sala. Sanziana, Steliana e Dorotheea a arrumavam. Elas não demonstravam notar nossa presença. Passamos por elas transpassando seus corpos. Estes não nos bloqueavam, apenas emitiam uma vibração suave quando os atravessávamos. Os corpos de Sanziana e Steliana eram frios, passar por eles era como atravessar uma dispensa, ou masmorra. Já o de Dorotheea, a única que não era vampira, era como se fosse uma imensa chama de vela, mas que não queimava, apenas aquecia agradavelmente. Sua vibração era intensa, chegava a dar cócegas. Ri quando senti isso.
Atravessamos a porta e fomos para o pátio. Passamos pelos criados e pelo portão principal sem que nada nos detivesse. Era como se tudo fosse feito de vento. Avançamos em direção à floresta. Quando começamos a adentrá-la, Oanna parou, voltou-se para mim e perguntou:
_Já voou, Irina?
_Não. Nunca fui um pássaro. _respondi ainda um tanto malcriada.
Oanna riu de minha irritação. Em seguida instruiu:
_Basta fechar os olhos e... pensar ser um pássaro.
_Qual? _inquiri.
_O que preferir, querida. _respondeu.
Tão logo ela disse isso, veio-me a lembrança o primeiro pássaro que vi, após ser amaldiçoada: uma coruja branca. Fechei os olhos, abri os braços, senti o vento e... estava no ar!... Sim, estava pairando no céu quando abri os olhos. Via toda a vastidão da região onde morávamos e podia distinguir, do alto, os rios, lagos, os pastores com seus rebanhos, tudo!... O castelo estava um pouco atrás. Lindo! Branco, com seus belos telhados vermelhos. Olhei para imensa abóbada azul do céu, matizada de nuvens brancas. O vento era intenso, chegava a me gelar, mas o frio não me atormentava. Olhei para os lados e não vi minhas mãos, apenas as pontas de asas com penas brancas, salpicadas de pontos negros. Ouvi então a voz de Oanna, vindo de cima de mim:
_Gostando do voo?
_Onde está você? _indaguei inquieta.
Ela não respondeu, apenas vi um falcão surgindo à minha direita. Ele abriu seu bico e o riso de Oanna soou.
_Ahahahah!...

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