segunda-feira, 2 de maio de 2011

CALIDORA
















Minha convivência com Dimitru não durou muito tempo. Um dia, eu dedlhava seu alaúde e ele se queixou:

_Pare de mexer nas minhas coisas!

_Só estou querendo aprender a tocar. Você disse que me ensinaria.

_Disse que ia lhe ensinar, não que podia mexer em minhas coisas! Você é muito intrometida! É desleixada também, parece um fantasma esfarrapado! Vai assustar os ciganos quando eles passarem por aqui. Por sinal, eles já não gostam muito de você... _massacrou ele, lembrando o episódio com os ciganos, que eu havia lhe contado.

_Você é que parece um fantasma! E eu não preciso dos ciganos! _gritei de volta.

_Então vá embora! Você não me ajuda em nada, só atrapalha!

_Você é um egoista! _gritei.

Começei então a jogar suas coisas sobre ele _a panelinha o acertou na testa.

_Vá embora daqui! _vociferou ele, pegando uma vara para me bater.

Atirei uma pedra que o acertou no braço. Em seguida sai gritando:

_Eu vou mesmo! Fique ai no seu chiqueiro!

E para ofendê-lo mais, gritei em magiar:

_Fique com seu chiqueiro, seu porco romeno!

Entrei então pela floresta, furiosa e chorando. Andei sem rumo a noite toda. Quando a manhã caiu, ainda cinza, fiquei com vontade de esperar o sol esquentar e me matar com seus raios. Fiquei sentada sobre uma imensa pedra, coberta de musgo, com lágrimas caindo dos olhos, sem me importar com as rosas que acenavam, lindas, vermelhas, para mim. De repente, algo inusitado despertou-me de meu transe de mágoa. Senti um perfume delicioso no ar. Não era o das rosas. Então uma doce voz feminina falou em koiné:

_Bom dia! Não são lindas?!

Virei-me e vi uma mulher aparentando pouco menos de 30 anos. Era pálida _claramente uma vampira _usava uma camisola branca e um longo manto de lã, azul marinho, sobre os ombros. Usava a maquiagem estranha das vampiras que me atacaram, o cabelo era arranjado de forma parecida, mas não era uma delas. Esta era outra, era diferente, parecia meiga. Ela me olhou sorrindo e continuou:

_As rosas! Não são lindas?! _disse passando as mãos suavemente sobre elas e aspirando seu perfume.

Não respondi, virei meu rosto, emburrada e comecei a chorar. Foi quando senti uma mãozinha de criança tocar meu rosto. Uma vozinha de menina então indagou, também em koiné:

_Por que você tá chorando?... "Num" chora!...

Virei-me e vi uma linda menininha, aparentando uns cinco anos, de cabelos castanhos, pálida como uma vela, vestida à moda estranha da mulher. Lembrei-me de Sarka, meus lábios tremeram e as lágrimas inundaram meus olhos. A pequenina então abraçou-me a cabeça e acariciou meus cabelos. A abraçei, deitei minha cabeça em seu frágil peito e começei a soluçar. Senti então a mão da mulher afagar-me os cabelos. Foi quando uma terceira voz, de menino, perguntou no grego alexandrino:

_Por que ela está chorando, mãe?

_Ela só está triste, filho!... _respondeu baixinho, em tom maternal.

_Por que? _insistiu o menino.

_Shiiii!... _conteve ela, sugerindo silêncio.

Aquela estranha família ficou ali, me consolando, até que recuperei minha compostura. Não demorou muito, a atenção das crianças se dispersou. A menininha colhia flores e o garotinho _que deveria ter uns sete anos _observava uma borboleta. Foi quando a mulher pôde conversar comigo. Sorrindo, indagou:

_Nunca vi você aqui antes. Não é sempre que encontro uma lâmia.

_O que é uma lâmia? _perguntei-lhe em koiné.

_Uma lâmia? Ora, você é uma lâmia!

_Você quer dizer uma vampira? _inquiri.

_Ah! É assim que vocês aqui da România falam! Sempre esqueço, nunca me acostumei.

_Você é grega, não é?

_Sim, sou da Tessália.

_Desde quando está aqui?

_Cheguei com uma legião. Meu ex-marido era centurião. Isso foi antes da România se converter à fé de vocês cristãos.

Quando ela falou isso, vi que entrara em um mundo muito estranho, mais estranho do que eu imaginava. Ela fora amaldiçoada há séculos! Eu ainda era incapaz de mensurar a dimensão disso. Ela porém, absolutamente alheia às minhas reflexões, simplesmente continuava colhendo suas rosas e dando atenção a seus filhos.

_Mamãe, mamãe, olha essa florzinha! _disse a menininha.

_É, filha! Deixa mamãe ver!...

Enquanto ela atendia a filha, perguntei:

_Qual é o seu nome?

_Calidora! _respondeu sorrindo.

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