quinta-feira, 17 de março de 2011

TRANSE

























O Pesadelo, Johann Heinrich Füssli.



As flores de János espantaram meus pesadelos por um tempo. Neste curto tempo, refleti sobre o sentido das mulheres que apareciam em meus sonhos. Elas falavam grego e de forma alguma aparentavam ser székelys, magiares, ou romenas. Seriam feiticeiras? Se fossem, só poderiam ser ciganas, tal era o exotismo de sua aparência. Porém, até onde sei, ciganos não falam grego. Para além disso, elas não recitavam encantamentos, apenas me chamavam.
Tão logo as flores se ressecaram e morreram, eu voltei a sonhar com elas. Voltaram, dessa vez, muito mais fortes. Eu sequer voltei a sonhar com papai, elas como que se apoderaram de meu sono. Agora não mais apareciam na penumbra, já se mostravam por inteiras. O sonho começava sempre da mesma forma, eu vagando perdida na floresta, em meio à bruma. Eu ouvia suas vozes sussurrando em meu ouvindo o tempo todo, me chamando. Às vezes elas ecoavam no ar, baixinho.
Eu então chegava à uma clareira. No meio dela, lá estavam elas. Quatro mulheres vestidas com longas camisolas brancas frisadas, cingidas por um fino cordão, à boca do estômago. Usavam mantos longos, azuis, da cor do céu noturno, e traziam o rosto maquiado de forma estranha. Os olhos contornados por uma tintura preta. Mantinham-se solenes, caladas, diante de mim, como se fossem juízas de um estranho tribunal.
O sonho sempre acabava neste momento. Eu não acordava mais atordoada, mas me sentia estranha, como que envolvida por uma força invisível. Havia em mim, cada vez mais forte, uma sensação de transe quando acordava. Ela era tão forte e evidente que tia Mónika finalmente a notou:
_Está doente, Irina? _perguntou demonstrando certa preocupação.
Ao ouvi-la, como que despertava e respondia como uma criança perdida:
_Hum... Não... Onde está a sopa, estou com fome...
_Friderika já a está trazendo. _respondeu com ar preocupado. _Tome... _deu-me então um pedaço de pão.
Não fiz o menor movimento para comer o pão, permaneci imóvel, com os olhos vidrados. As criadas cochichavam ao me ver assim, mas eu sequer tinha qualquer disposição para me irritar com elas. Friderika trouxe, finalmente, a sopa e, ao me ver paralisada, como que sonhando, tia Mónika me serviu. Quase como uma sonâmbula, comecei a tomar a sopa. Sorvia-a colher a colher, enquanto aquele estranho estado parecia me deixar pouco a pouco.

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