sábado, 5 de março de 2011

ALHO




















As acusações continuaram sendo cochichadas pelos cantos, pelos criados.
_Ela é ruiva e tem olhos azuis. Não veem, é vampira. _argumentava, convicta, uma sórdida mocinha, que era camareira.
Eu fingia não lhes dar ouvidos. Não podia me delatar. Mas apesar de minha determinação em lutar por papai e por mim mesma, comecei a ser acometida por uma inimiga invisível: a melancolia. Esta recaiu sobre mim com uma força irresistível. Uma manhã, decidi transpor os portões e passear no campo. Tinha certeza que um passeio me faria bem. Antes que o fizesse, os guardas cruzaram suas lanças à minha passagem e me informaram:
_Recebemos ordens expressas de não deixá-la sair sem permissão, marquesa!
Olhei em seus olhos e vi que estavam falando muito sério. Meu coração partiu-se em dois!... A partir daquele momento, um grande abatimento se apoderou de minha alma. Senti-me como uma flor murcha. Os dias se tornaram estéreis, as noites se tornaram atormentadas. Tinha sonhos recorrentes com papai. Sonhos que começavam maravilhosos, com nós dois juntos, desfrutando as delícias do amor. Porém, logo se tornavam pesadelos. Em um deles, estávamos passeando em um lindo campo. Então os flocos de neve começaram a cair pouco a pouco. Rapidamente, o céu fechou, o vento se tornou forte e uma brutal tempestade começou. Eu me agarrei a papai com medo. Mas quando a fúria da tempestade atingiu o auge, os ventos colossais nos separaram. Eu fui então atirada para a floresta, onde me perdi em meio à bruma. Acordei só, desesperada, chorando e chamando por papai.
No início, eu não mais conseguia dormir após os pesadelos. Porém, com o tempo fui ficando cansada, minhas forças foram-se exaurindo. Foi neste momento... que "elas" apareceram!... Eu voltava a dormir e me via numa floresta escura. De repente, suas vozes surgiam, sussurrando... em grego koiné!... "_Irina... Irina...". Eu olhava para todos os lados e só via bruma. Uma sensação estranha tomava conta de mim, uma mistura de excitação e desespero. Quando acordava, me sentia como que enfeitiçada. Como se estivesse drogada por alguma infusão. A sensação desaparecia pouco a pouco, tão logo me alimentava ao desjejum.
Os dias foram se tornando tormentosos. Eu não possuía um único livro para ler, a não ser uma bíblia que tia Mónika pusera na cabeçeira de minha cama. Era uma tradução protestante para o húngaro. Comecei a lê-la por não ter outra opção. No início, consegui distrair-me, apesar de a tradução ser muito ruim. Senti saudades de frei Emil, de sua cultura, de seu carinho, de seu impecável latim!...
Não tendo mais nada a fazer, consegui ler toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse. O outono começava e tudo se tornava nebuloso. Perambulava pelo castelo, com a Bíbila na mão, ouvindo os criados cochicharem:
_Ela é vampira, ela não se salvará...
E olhavam para mim com olhos arregalados de abutre, como que esperando eu cair para me devorarem. Balançavam a cabeça negativamente e voltavam a sentenciar baixinho:
_Vampira, ela será uma vampira...
Quando a noite caia, eu praticamente desfalecia na cama. Tão logo isso acontecia... "elas" começavam:
_Irina... Irina... Venha para nós... Venha, Irina...
E então eu me via na floresta, caminhava em meio à bruma e chegava até uma clareira. Elas então apareciam, mas não diante de mim, porém apenas em meus pensamentos. Via apenas suas bocas, partes de seus rostos e olhos, meio encobertos pelas sombras. Elas convidavam, chamavam, clamavam:
_Irina... Venha conosco, Irina... Venha, Irina... precisamos de você...
Este sonho crescia e me tomava mais a cada noite. Notei então que ele não era um sonho, mas uma espécie de transe, de possessão.
Certa manhã, extraordinariamente tia Mónika me chamou para passear com ela em frente ao solar. Foi quando vi pela primeira vez o sábio János. Ele chegou com seu burro carregado de quinquilharias e sacos com ervas. Seus longos cabelos _já com vários fios brancos, pois estava já transpondo os quarenta anos _caiam em madeixas maltratadas debaixo das abas do surrado chapéu. Saudou então tia Mónika e ofereceu:
_Bom dia, senhora! Tenho ervas e raízes para todos os usos! Hortelã, alecrim, gengibre!...
_Gengibre! Você tem gengibre! _exultou tia Mónika.
_Tenho, minha senhora! _respondeu János alegremente.
Minha tia e duas velhas criadas o pararam para ver suas especiarias. Ele então olhou para mim, sorrindo. Seus olhos vivos pareciam me penetrar a alma e seu sorriso tinha algo de enigmático. Disse então algo que me assustou:
_Não fique triste, marquesinha, tenho algo aqui que lhe fará sorrir!...
Olhei-o espantada. Como ele sabia que eu era uma marquesa? Era a primeira vez que o via. Ele então puxou um pequeno buquê de flores de alho e disse:
_Tome! Dou de presente para você!... A fará dormir mais tranquila!...
Espantei-me com sua atitude. Como ele poderia saber que eu tinha pesadelos?... E depois, flores de alho!... Estaria gracejando? Alguém lhe contara algo? Peguei então o pequeno buquê com desconfiança. Ele continuou olhando para mim, com seus olhos vivazes e penetrantes. Nos lábios, um sorriso que continha uma estranha felicidade.

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