terça-feira, 29 de março de 2011

A DAMA






















Eu não sei quanto tempo permaneci desacordada. Lembro que quando abri os olhos, ainda me encontrava na clareira, porém tudo à minha volta se encontrava diferente. Havia uma estranha luminosidade em tudo, como se a lua _que pairava cheia no céu _banhasse todas as coisas com seu brilho frio e prateado. Eu me sentia lânguida, como quem acorda de uma bebedeira. Porém, não sentia dor. Percebi que estava completamente nua. Minhas roupas estavam sob minhas ancas, no chão, ainda como a cama improvisada que as vampiras fizeram. Havia sangue coagulado em meu corpo. Descia do pescoço, passando entre os seios, até o meio de minhas coxas. O sangue chegara a banhar meu sexo. Toquei no pescoço e senti duas profundas e protuberantes perfurações, pouco abaixo da orelha direita. Notei ainda outras duas perfurações pouco abaixo da mandíbula esquerda. Olhei então para meus pulsos... Em cada um deles, as chagas de duas profundas dentadas figuravam envoltas em sangue ressecado. O sangue também banhara minhas roupas, deixando uma imensa nódoa. A despeito dessa imagem aterradora, não me sentia mal. Pensei comigo mesma, "_Devo estar morta!...". Para minha surpresa, uma doce voz feminina respondeu aos meus pensamentos:

_Sim, Irina, você está!...

Olhei na direção da voz e vi uma mulher linda, aparentando vinte anos de idade, de pele branca e cabelos negros, arrumados em um belo penteado. Seus olhos grandes tinham pupilas negras e seu sorriso era meigo, porém algo malicioso. Ela trajava um belo vestido azul turquesa, de seda, que reluzia miraculosamente. Ele era ricamente trabalhado, como das grandes damas. Estava sentada sobre um tronco decepado de árvore, que não existia na clareira, até então. Como uma estranha fada, ela começou falar:

_Mas não por muito tempo. Na verdade, a partir de hoje, todas as vezes que fechar os olhos para repousar, não dormirá... morrerá!...
Engoli esta sentença em seco, em minha garganta. Ela prosseguiu:
_Também não terá mais sonhos, apenas voltará para cá... para o mundo dos mortos. E quando despertar... voltará ao mundo dos vivos.
Desesperei-me:

_Por que não posso morrer de uma vez? Descansar, como todos os mortos?...

_Porque este direito lhe foi tirado. _respondeu ela doce, porém impiedosa.

Baixei a cabeça, compreendendo tudo. As lágrimas desceram inevitavelmente de meus olhos. Com a voz chorosa supliquei:

_Por favor, me deixe morrer!... Que eu vá imediatamente para o inferno... queimar por toda a eternidade... mas que eu possa morrer em paz...

_Seu inferno será este: penar na escuridão... Meio viva... meio morta... _respondeu ela mansa e categórica.

Espremi meu rosto em choro, vertendo dois rios de lágrimas de meus olhos. Sem piedade, ela continuou:

_Você não tem direito à morte, Irina. Nem à vida. Vagará entre uma e outra... toda vez que dormir, toda vez que acordar.

_Mate-me!... Mate-me de uma vez... Você é o anjo da morte , não é?.... Então leve-me!... Leve-me de uma vez!... _supliquei chorando.

Ela soltou um riso leve e gracioso, como se fosse uma jovem e paciente mãe. Respondeu então:

_Não sou um anjo.

Desesperada, fiquei de joelhos e supliquei novamente, estendendo-lhe os braços:

_Seja você quem for, leve-me! Não me deixe daqui...

Ela abriu um sorriso meigo, ergueu-se do tronco de árvore e veio até mim. Afagou meu rosto carinhosamente, como uma mãe, e disse:

_Acorde, Irina. Acorde. Já é hora... _ e fechou meus olhos com a mão.
Ainda sob a escuridão, ouvi como que bufos e uma baforada quente, úmida e mal cheirosa sobre meu rosto. Algo quente e molhado começou a se esfregar em meu pescoço. Outros bufos e rosnados chegaram aos meus ouvidos. Agora eram meus pulsos que passavam a ser lambidos. Comecei a sentir como que picadas em meu corpo, nas costas, no pescoço, no pulso esquerdo. Arranhadas. Algumas "coisas" geladas... tocavam e empurravam meu corpo. Foi quando minha consciência voltou de todo...
Com um movimento brusco e um irado e agudo grito, ergui-me e joguei dois lobos para longe de mim. Chegaram a rolar pelo chão! Ganindo assustados, se afastaram. Porém, com os olhos flamejando na escuridão, toda uma alcateia começou a rosnar e latir ameaçadoramente. Como um animal selvagem _completamente nua! _ pus-me em guarda, sobre as duas pernas semiflexionadas... também rosnando e sibilando assustadoramente. Sem recuar, eles continuaram a rosnar, circulando à minha frente. Começaram então a insinuar pequenos avanços, latindo e rosnando ameaçadoramente. Seu objetivo era me amendrontar e acuar. Uma bela forma de desarmar a presa.
Eu estaria sentenciada à morte se eu fosse quem era antes. Mas para desgraça deles, eu não o era mais... Um deles _visivelmente o lobo líder _se aproximou babando e rosnando, seguro e ameaçador e, sem demonstrar nenhum medo, saltou sobre mim...
Tão logo o fez, sem sequer pensar, projetei meu braço para frente, com a mesma rapidez de seu salto. Minha mão enfiou-se em sua goela!... Agarrei-o pela língua, rasgando-a por baixo, com as unhas!... Como um travesseiro velho, sacudi seu corpo no ar e o joguei de volta à alcatéia. Seu pescoço estalou alto ao se fraturar. Como um imenso soco, caiu sobre três de seus irmãos. Um teve o focinho fraturado, rodando desnorteado, tonto, jorrando sangue pelas narinas, acabando por tombar. O outro saltou ganindo de dor, por ter quebrado a perna dianteira. O último dos três, também tombou morto pois, como seu líder, quebrou o pescoço.
Urrei muito alto, em seguida. Eu era a fera ali!... O vento frio da noite de outono bateu forte. Minha juba ruiva, desgrenhada, revolvia sobre meu rosto. Minha respiração soltava assustadoras nuvens de vapor. Meus olhos... deveriam estar mais vermelhos que nunca!... Amedrontada, a alcateia se afastou. Respirando o ar frio da noite, senti que estava viva _viva! _e comecei a chorar.

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