
O segundo círculo dos luxuriosos, por Delacroix.
Papai era um homem decidido, e exatamente por isso, eu sabia que meu destino em breve seria definido. Ele poderia ficar comigo até o fim de seus dias, ou poderia mandar-me para algum outo lugar. Infelizmente, a segunda possibilidade foi a que vingou. No dia seguinte á morte de mamãe, ele me chamou em sua sala e sentenciou:
_Não podemos mais continuar como estávamos, Irina. Você irá morar com seu tio István. Já mandei prepararem suas coisas, você irá ainda hoje.
Eu sabia que não adiantaria contestar. Simplesmente baixei minha cabeça e chorei minha condenação. Parti no coche depois do almoço, vendo frei Emil, Andrei, Anna, Mihail e Nicolae se distanciarem pouco a pouco de mim. Anna chorava muito. Frei Emil a amparava, mas chorava tanto quanto ela. Andrei derramava lágrimas em silêncio e meus irmãos se detinham em me ver partir, com os olhos vermelhos. Papai não desceu para se despedir de mim. Eu o entendia e não o condenava.
Mergulhei na bruma do outono. As árvores secas me acenavam, dando-me boas vindas no Inferno. A viagem até o solar de tio István era como descer os círculos de Dante. Mas eu estaria feliz em sofrer os ventos furiosos do segundo círculo _o dos luxuriosos _se papai estivesse comigo. Passar a eternidade com quem se ama, mesmo no Inferno, é o paraíso. Se me pusessem diante do Senhor, com toda sua glória, eu lhe diria:
_Manda-me para o Inferno, pois quero a quem amo!
Quando o coche parou diante do solar, a noite já havia descido de todo. Desci e o cocheiro me acompanhou até a entrada. Os guardas me reconheceram e abriram o portão. Entrei e fui recebida com uma estranha frieza por meus tios. O cocheiro entregou a tio István uma carta de papai, despediu-se rapidamente e em seguida partiu. Meu tio leu a carta em silêncio. Era curta, tinha poucas linhas. Ao terminar, olhou-me sério e disse:
_Sendo assim... entremos! _disse acenando o rumo da porta.
Tia Mónika gritou chamando os criados:_Tamás! Miklos!...
Os dois rapazes apareceram rapidamente. Tia Mónika então ordenou:_Levem a arca para o quarto de hóspedes!
Os dois rapazes carregaram minha arca e tia Mónika me puxou pelo braço:
_Vamos, Irina! _disse em um tom frio, como de um carcereiro cauteloso.Se um pai entrega sua filha aos cuidados de outro alguém, até mesmo da Igreja, é porque em algum lugar reside a culpa e o erro. As pessoas sabem disso. Ou você é adúltera, ou é incestuosa, ou é lesbiana, ou já foi deflorada. Algum destes pecados você cometeu. Eu cometera dois... e ainda estava disposta a cometer mais três e quatro!
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