
Durante parte do inverno, toda a primavera e todo o verão, eu e papai vivemos um paraíso. Nossa única preocupação era a de sermos descobertos. Isso poderia acontecer se fôssemos flagrados, ou se eu engravidasse. Para evitar flagras, escolhíamos as horas e lugares certos para nossos encontros. Para evitar que eu engravidasse, praticávamos a sodomia em meus dias férteis. Anna me explicara que se a mulher evitasse ser preenchida dez dias antes da menstruação, se salvaria da gravidez. Como ela só engravidou após sua união com Ignaz, acreditei nela. Porém, tive ainda a curiosidade de perguntar como deteria o desejo sexual nos dias férteis. Ela respondeu-me que a mulher poderia continuar deitando-se com o homem nos dias férteis, desde que eles praticassem a sodomia. Perguntei-lhe se era doloroso e ela respondeu-me que se o homem fosse carinhoso e lambesse o ânus, untando-o, não apenas o membro entraria fácil, como a mulher experimentaria um intenso prazer. Tudo isso ela me explicou quando me revelou o que realmente acontecera com Mila. Soube da verdade apenas aos 12 anos.
Assim sendo, eu e papai nos entregávamos aos pecados de Sodoma. Minhas nádegas sempre foram proeminentes e sedutoras, como as de Vênus, característica que herdei de minha mãe. Oferecia então meu traseiro a papai, empinando-o, seja apoiada na parede, seja de quatro, na posição das lupas romanas. Por vezes, papai me sodomizava estando eu deitada de lado, o que era intensamente prazeroso.
Eu tivera sorte por papai já ser hábil na prática da sodomia. Ele segredou-me que passou a praticá-la muito com mamãe, depois que nasci. Mamãe começou a ter problemas a partir do parto de Mihail. Quando nasci, ela quase morreu. Madame Dorka teve de abrir seu ventre com uma faca para me retirar, pois ela não sobreviveria ao parto normal. A velha parteira então deixou claro que ela não resistiria a outra gravidez. Por isso, recomendou a papai que adotasse a prática sodomista. Segundo papai, mamãe de tal forma se habituou à nova prática, que passou a apresentar um fogo quase insaciável, procurando-o mesmo durante o dia. Suas relações, no entanto, foram comprometidas por sua conversão ao luteranismo. Ela não aceitava mais ser sodomizada, postulando ser esta prática pecaminosa e contrária à lei de Deus e da natureza. Não demorou para que dormissem em quartos separados. Quando papai me contou isso, me enchi de revolta, pois pensei o quanto irmão Sandór deveria estar se deliciando com o traseiro dela.
Para ressarcir papai desta afronta, entregava meu traseiro à hora que ele quisesse, o quanto quisesse. Isso para além da felação e da cunilíngua que praticávamos à farta. Toda nossa vilúpia, no entanto, acabou por nos deixar descuidados. Uma manhã, estávamos na sala de reuniões, com a porta perigosamente aberta. Eu o abraçava e beijava completamente nua, quando mamãe entrou. Só notamos sua presença quando ela deixou a bandeja com frutas cair, se estatelando no chão. Ao que parece, queria fazer uma surpresa a papai, para se reconciliarem. Olhamos assustados, ela não conseguia falar. Seu rosto, lívido, fazia uma careta de choro desesperada. Ela movia a cabeça negativamente e levava as mãos à cabeça, não querendo acreditar no que via. Foi quando começou a balbuciar:
_Não... Não... Não...
Papai tentou contê-la:
_Eva... Eva venha cá... _dizia estendendo-lhe a mão, desconsertado.
Mamãe não o ouviu mais. Virou-se e correu desabaladamente. Papai a seguiu, mas foi em vão. Absolutamente atordoada, mamãe tropeçou ao descer as escadas, rolando em seus degraus até atingir o chão. Quando papai foi socorrê-la, já estava morta. Quebrara o pescoço e ainda batera fortemente com a cabeça. Escorria sangue atrás de sua cabeça e seus olhos estavam vidrados.
Seu enterro se deu ao meio da tarde, naquele dia sombrio de outono. Apenas eu e Greta não comparecemos. Ela em função de sua gravidez. Eu, por ter-me trancado no quarto. Porém, ainda acompanhei parte do ritual, olhando da janela. Foi revoltante ver irmão Sandór recomendar sua alma. Papai estava transtornado, por isso aceitou o enterro protestante. Mihail chorava como uma criança, o que dilacerava meu coração. Não derramava lágrimas por minha mãe _de quem não esquecia a traição _e sim por Mihail, a quem, de certa forma, fizera sofrer. Nicolae derramava lágrimas em silêncio, como era seu feitio. Anna, Klara, Arnira e a velha Erzi, recitavam seus terços em prantos. Os cocheiros Theodor e Romeo, assim como Andrei, rezavam baixinho _inconsoláveis! _em romeno, sua língua materna. Tinham profundo respeito e carinho por mamãe, que era romena. Ela jamais falava em magiar com eles, sempre em romeno. Frei Emil consolava papai. Junto ao detestável irmão Sandór, havia seis "irmãos" e "irmãs" luteranos de mamãe.
Após o enterro, papai foi levado para dentro, amparado por Erzi e Anna. Embora me angustiasse vê-lo sofrer, não fui consolá-lo. Sabia que minha presença só o faria sofrer mais, pois eu fora a culpada do que acontecera. Resolvi então caminhar. Afastei-me do castelo, vagando à sombra das árvores que se desfolhavam amareladas, sob o céu pálido. A bruma desceu e mergulhei nela. Não me arrependia de nada, mas não negava minha culpa. Era um anjo caído.
Nenhum comentário:
Postar um comentário