Saudei Mica com um sorriso e voltei a lutar. Como um enfurecido Sansão, Nicolae ergueu e jogou o corpo de um soldado sobre seus companheiros, que foram atingidos em cheio. Aqueles que tinham o infortúnio de chegar próximos dele, ou eram cortados com a espada, ou eram puxados e sugados com voracidade. Por ordem mental minha, Nicolae arrancava um grande naco de carne do pescoço de suas vítimas, inviabilizando seus corpos para a maldição. Ver aquele aterrador vampiro, de olhos varmelhos, vidrados, sugando o sangue e mastigando a carne de seus colegas era espetáculo tenebroso demais para os soldados sobreviventes, que fugiam gritando. Enquanto isso, eu e Mihail batíamos os soldados à nossa volta, cortando gargantas e abrindo ventres.
Uma vez esvaziada a sala em que estávamos, rumamos para a sala de reuniões do conde. Este, cercado de vários soldados, já acuava quatro pobres székelys, dos nove que ali haviam entrado. Os outros cinco jaziam mortos no chão. Mal adentrou ao recinto, Nicolae pegou dois soldados pelo pescoço e os jogou como espantalhos sobre quatro de seus colegas. Um deles acabou com o ventre transpassado por uma lança. Tomado por seu transe de fúria, Nica tomou o machado de um soldado morto e começou a "ceifar" tudo o que estivesse à sua frente. Mãos eram decepadas, cabeças tombavam para as costas, outras literalmente rolavam pelo chão. O machado, por fim, acabou por cravar-se nas costelas de um soldado gordo. Sem piedade, Nica pisou no peito do soldado e desencravou a lâmina. O gordo berrou um grito fino e engasgado, ao ver seu fígado se derramar após a lâmina se desprender.
Por seu turno, Mihail batia sua espada contra o capitão do conde. Este, em um patamar mais alto da sala, emitia ordens desesperadas para seus soldados:
_Matem este demônio! _berrava com olhos arregalados de terror por Nicolae.
Nicolae, no entanto, matava e aleijava o que quer que se aproximasse dele. Não tendo mais quem abater, passou a subir calmamente os degraus do patamar onde se encontrava o conde. Desesperado, este tomou uma lança da parede. Nicolae simplesmente aproximou-se e, com um tapa, jogou a lança longe. O miserável conde, no entanto, era um velho matreiro. O tapa o fizera cair batendo-se contra a parede. Ao perceber uma tocha suspensa sobre sua cabeça, com uma rapidez de felino, ergueu-se, tomou-a nas mãos e apontou-a para Nicolae. O manteve à distância assim, enquanto se aproximava novamente da lança. Nica tentava derrubar a tocha desferindo tapas no ar, mas temia queimar-se. Ao chegar próximo o suficiênte da lança, o maldito conde lançou-lhe a tocha ao rosto. Nica atrapalhou-se ao defender a face. Conde Vladimir aproveitou seu momento de vulnerabilidade e desferiu um chute em seu estômago, empurrando-o para a parede. Mal Nicolae recompôs-se do empurrão, uma lança atravessou-lhe o coração, prendendo-o à parede. O conde conseguira seu intento! Desesperada, soltei um grito agudo:
_Nãããooooo!!!...
Cheio de ódio, o conde gritava contra Nicolae:
_Morra seu vampiro maldito! Morra!
Sentindo o conde enterrar-lhe o mais possível a lança ao peito, Nicolae resfolegava, golfava sangue pela boca e tentava arrancá-la em vão. Por fim, suas forças o abandonaram e ele espirou. Gritei:
_Aaaaaaaaaaaaahhhh!!!...
Abrindo os braços, joguei para os lados os soldados com quem lutava e corri na direção do conde. O bandido, no entanto, tomou mais outra tocha da parede e arremeçou-a contra mim. Com o pensamento muito rápido, percebi que só podia me defender revestindo meu corpo com uma aura invisível de força. Encobri-me então com a capa e curvei-me. A tocha caiu sobre ela e incendiou-a. O fogo a consumia, mas não me tocava a pele e nem os cabelos, pois a força o afastava. Porém, eu sabia que não teria força disponível por muito tempo para manter o fogo longe de minha carne. Corri então até a janela e saltei para o fosso que cercava o castelo. Como uma estrela cadente, mergulhei nas águas turvas. A queda fora tão forte que cheguei a bater com os braços no fundo. Fosse eu uma reles mortal, os teria quebrado. Recobrei então a lucidez rapidamente após o choque e nadei de volta à tona. Com braçadas forte, cheguei até a parede e comecei a escalá-la. Foi quando notei que minhas roupas haviam se tornando andrajos. Pedaços de meu vestido se desprendiam e caiam. O fogo quase o consumira por completo. Acabou ele ficando reduzido à uma tanga, que mal me cobria as coxas e a vulva. Meu tronco estava completamente nu, mostrando meus seios e minha barriga até quase o baixo ventre. Meu corpo, no entanto, não fora maculado pelo fogo, ficando apenas com a pele ruborizada, como se eu a tivesse exposta ao sol do verão.
O mais rápido que pude, cheguei até a janela. Pingando água, saltei então para dentro e vi que três soldados acuavam Mihail contra a parede. Nossos quatro últimos companheiros székelys estavam mortos. Como minhas adagas ainda estavam milagrosamente presas ao meu cinto, puxei-as e atirei-as, ceifando a vida logo de dois. Ambos cairam com as gargantas traspassadas. Percebendo meu retorno, Mica aproveitou-se do susto do soldado à sua frente e traspassou-lhe o peito. Este soltou um gemido sufocado.
Chamei minhas adagas de volta às minhas mãos e caminhei implacável na direção do conde. À esta altura, apenas dois soldados restavam. Um deles simplesmente fugiu apavorado, o outro, estando longe da porta, encolheu-se na parede como uma criança assustada. O conde estava sozinho. Pé ante pé, caminhava até ele, subindo os degraus do patamar. De fato já não tinha tanta força, a aura protetora e a subida da parede do castelo esgotaram minhas últimas reservas. Estava tão forte quanto qualquer mortal exausto. Apenas a ira me movia. Minha fúria se juntava à razão e uma idéia se repetia em minha mente: "_Preciso de sangue. Vou ter de tomar o sangue deste porco!".
Erguendo temerosamente sua espada, conde Vladmir tremia e ameaçava:
_Afaste-se de mim, em nome do santo sangue!... Você não tem mais força, sua criatura do inferno! Posso ver!... _soltou então um leve riso de deboche.
Eu realmente não conseguia esconder meu cansaço, porém, juntei todas as minhas forças para matá-lo. Olhando-o baixo, como o lince, estudei-o e depois desferi o primeiro golpe. Com a mão direita, bati sua espada. Como eu esperava, ele aproveitou o impulso para logo em seguida lançar sua lâmina em contragolpe, em minha direção. Observei calmamente sua espada vir em direção ao meu pescoço. Apesar de fraca, meus reflexos de vampira ainda me valiam. Antes que sua lâmina chegasse _com a adaga da mão esquerda _interceptei seu golpe à meio caminho e decepei sua mão. Esta caiu ao chão ainda segurando a espada.
_Aaaaaaaaaaaahhhh!!!... _gritou o porco segurando o pulso direito, ensanguentado, desprovido de mão.
Sem mais esperar, cruzei as lâminas de minhas duas adagas sob seu pescoço e fiz com que ele erguesse seu olhar para mim. Mirando seus olhos aterrorizados, sem dizer uma palavra, ceifei-lhe a vida. O sangue esguichou em meu rosto. Sua cabeça tombou para as costas, segura apenas por um pedaço de pele. Isso porém não me bastava. Segurei seu cambaleante corpo e o puxei para mim. O sangue derramou como cascata rubra e eu o recebi banhando minha boca. Ajoelhada como se saudasse um rei, fartei-me do sangue do bandido, que escorria sobre meus seios e minha barriga, indo pingar em meus pés.

Nenhum comentário:
Postar um comentário